Nunca ninguém se perdeu, tudo é verdade e caminho.
Fernando Pessoa



quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Os Pássaros Brancos - W.B. Yeats


A caminho de Innisfree

A poesia do Nobel da literatura irlandês W. B. Yeats está de volta às livrarias.

A complementar a antologia da poesia de William Butler Yeats (1865-1939, Nobel da Literatura em 1923) com tradução de José Agostinho Baptista (Assírio & Alvim, 1996), regressa agora às livrarias uma outra seleção da obra do grande poeta irlandês, esta assinada e traduzida por Maria de Lourdes Guimarães e Laureano Silveira e aumentada em relação à edição original, datada de 1993. Os Pássaros Brancos e Outros Poemas apresenta 70 poemas escritos entre 1889, ano do segundo livro de poesia de Yeats, e 1939, o da sua morte. Entre os poemas acrescentados, leia-se este curto «Um Casaco»: «Talhei para a minha poesia/ Um casaco cheio de bordados/ Tirados das velhas mitologias/ Desde os pés ao pescoço;/ Mas os loucos tiraram-mo,/ Usaram-no aos olhos do mundo/ Como se eles o tivessem feito./ Poesia, deixa que o levem,/ Pois há mais audácia/ Em caminhar nu.»
Laureano Silveira explica que, por se tratar de uma poesia marcada pela dramaticidade e musicalidade, os tradutores prestaram reforçada atenção «à valoração do ritmo» e respeitaram «o tom retórico que contribui para a definição das atmosferas emocionais». Dividida pelo próprio em dois grandes períodos (situáveis antes e depois de O Vento Por Entre os Juncos, de 1899), a obra de W. B. Yeats inicia-se num grito contemplativo dos mistérios da vida e do amor e da forma e passagem do tempo, herança da poesia de Spenser, do romântico Shelley, do crítico Walter Pater, dos pré-rafaelitas ou dos simbolistas franceses. Então, escreve: «Quem me dera que fôssemos, amor, pássaros brancos sobre a espuma do mar!» Patriota, enaltece a «irishness», a mitologia e o folclore, as qualidades da Irlanda: «Quero erguer-me e partir já, ir para Innisfree,/ E construir ali uma cabana de barro e juncos:/ Ter ali nove leiras de feijão, uma colmeia,/ E entre o zumbido das abelhas na clareira viver só.» É o poeta atento à alma e à natureza numa espécie de sonho acordado. Numa segunda e mais extensa fase, a poesia de Yeats atinge o auge na conjugação de uma linguagem mais física e direta (influência de Ezra Pound) com uma singular visão simbólica e espiritualista. A orgulhosa música da poética de Yeats, a da palavra justa com alcance hermético e atitude crítica, será um espaço aberto ao modernismo.

Os Pássaros Brancos e Outros Poemas, W. B. Yeats, Relógio D’Água, 198 págs.

SOL/ 10-02-2012
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Humilhação e Glória - Helena Vasconcelos


Ser Alguém

Helena Vasconcelos apresenta o caminho da mulher da humilhação à glória.

No final do século XIX, Emily Dickinson escrevia, na sua tão particular sintaxe e pontuação: «Não sou Ninguém! Quem és?/ És tu - Ninguém - Também?/ Há, pois, um par de nós?/ Não fales! Não vão eles - contar!// Que horror - o ser - Alguém!/ Que vulgar - como Rã -/ Passar o Junho todo - a anunciar o nome -/ A Charco de pasmar!» (tradução de Ana Luísa Amaral) A poeta, a partir dos 36 anos enclausurada por vontade própria na casa da família, sempre vestida de branco, anotando poemas perenes em cadernos manufacturados, como uma aranha que tece a teia em silêncio, é um dos símbolos mais veementes da complexa história da afirmação das mulheres. Após referir o sadomasoquismo que a filósofa Camille Paglia atribui a Dickinson, a crítica literária Helena Vasconcelos defende que «bizarras formas de estar – tão difíceis de compreender à luz dos hábitos contemporâneos» como a da poeta norte-americana representam ainda «a luta titânica das mulheres, dilaceradas entre o desejo de transcenderem as limitações do (seu) género e o medo ancestral de se tornarem párias, abandonadas à sua sorte e para sempre ostracizadas, num espaço social que apenas lhes oferece proteção se elas se comportarem de acordo com as normas ditadas pela (sua) “natureza”». É a essa luta das mulheres entre Humilhação e Glória que Helena Vasconcelos dedica o ensaio homónimo: um roteiro muito pessoal por múltiplas figuras femininas ocidentais, várias delas portuguesas, que determinaram a conquista, por fim, do «Tempo das Mulheres» no século XX.
Mais do que um ensaio de «estudos femininos» (aos quais é dedicado um capítulo), Humilhação e Glória é uma digressão intelectual muito mastigada e bem documentada por um tema há vários anos privilegiado pela autora, o que lhe dá uma cativante dimensão de intimidade. É através de um vasto percurso literário que Helena Vasconcelos, também uma grande promotora da leitura, nos faz entrar por dentro de uma história particular da expressão das mulheres na literatura, na política, na ciências, nas artes plásticas ou, tão somente, pela particularidade do seu corpo. Repleto de remissões, figuras, ligações, histórias e detalhes, Humilhação e Glória exalta o ensaio literário de autor, género infelizmente escasso em Portugal.oria﷽﷽﷽﷽﷽﷽rar  e grande promotora da leitura,  da s intimista.sex) "lhes oferece proteç_________________________________________ória da expressão

Humilhação e Glória, Helena Vasconcelos, Quetzal, 328 págs.
SOL/ 03-02-2012

© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Os Malaquias - Andréa del Fogo


Raio de vida

Vem do Brasil rural a inspiração de Andréa del Fogo, 
Prémio José Saramago 2011.

«Serra Morena é íngreme, úmida e fértil. Aos pés dela vivem os Malaquias, janela com tamanho de porta, porta com autoridade de madeira escura. […] Debaixo da construção a terra, de carga negativa, recebeu o raio positivo de uma nuvem vertical.» Com um dos mais belos arranques da recente literatura em língua portuguesa, Os Malaquias, primeiro romance da paulista Andréa del Fuego (Andréa Fátima dos Santos, n. 1975), venceu o Prémio José Saramago 2011. Atribuição muito justa para uma obra de exceção entre a nova ficção brasileira, há muito (demasiado) tempo dominada pelo universo urbano. No vale fundo da Serra Morena, depois totalmente alagado para se tornar reserva hidroelétrica, um casal morre fulminado por um raio na cama, na sua casa pobre, os três filhos dormindo «aninhados em forma de embrião» no quarto ao lado. Nico, Antônio e Júlia tomaram os nomes do avô e dos tios-avós da escritora, a história verdadeira da morte dos pais e um destino de orfãos. Os Malaquias é uma derivação das memórias de uma família mineira, num Brasil rural onde o fantástico ainda mora para lá da roça, do milheiral, da mata e das cachoeiras.
A própria autora reconhece que num texto tão próximo seria difícil evitar as metáforas. Até o seu olho de cada cor lhe parece herança dos bisavós que «morreram de raio». Inundada de memórias e imagens arcaicas («os dias iam devagar, engenho azeitado, as horas escorregando no tempo como calda em pudim»), a escrita muito sensorial de Andréa del Fuego recolhe força dessa ponte metafórica entre o passado e o presente que, embora datada e localista, fez a grandeza da literatura sul-americana. Nico cresce e trabalha numa fazenda até casar e recuperar a casa dos pais. Antônio, o anão criado pelas freiras francesas, regressa à Serra para viver com o irmão e a cunhada. Júlia é criada de servir da senhora que a adota, por fim costureira de sucesso, «sempre um intervalo entre ela e o ambiente». Geraldina, mãe do fazendeiro Geraldo («dono até do que não tinha»), descendente de índios, é o espírito que acompanha a história, «circula como pó de uma penteadeira não encerada». Excessivo no final, o delírio fantástico abre uma porta para outro mundo, hoje apagado e esquecido, mas ainda cheio de vida.

Os Malaquias, Andréa del Fuego, Círculo de Leitores, 265 págs.
SOL 27-01-2012


© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)