Nunca ninguém se perdeu, tudo é verdade e caminho.
Fernando Pessoa



quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

A Essência das Religiões - Huston Smith


A Babel da Fé

Editado pela primeira vez em 1958 e com mais dois milhões e meio de exemplares vendidos em todo o mundo, The World’s Religions: Our Great Wisdom Traditions é uma das mais consideradas análises comparativas não valorativas entre as sete principais religiões: cristianismo, hinduísmo, budismo, confucionismo, taoísmo, islamismo e judaísmo (a que acresce um capítulo sobre religiões primitivas). A obra, assinada pelo professor de estudos religiosos Huston Smith, foi editada pela Lua de Papel, com o título A Essência das Religiões. Mais do que um manual de história das religiões ou das instituições que as sustentaram, trata-se de um «livro sobre valores» e «inabaláveis verdades teológicas e metafísicas», sobre as expressões mais felizes e conseguidas da imensidão da fé humana.
O ponto de partida, esclarece-se na introdução, será sempre o de um ocidental. Mas é este ocidental contemporâneo que Huston Smith encarrega da mais ambiciosa tarefa: tornar-se um «Bailarino Cósmico» e religar o mundo à sua volta, abrindo-se ao entendimento e respeito pelas concepções e vivências de todas as religiões vivas. Escutando todas as vozes que, de uma forma tão díspar mas igualmente intensa e vivida, se dirigem a um Deus, Smith pergunta: «Será que há uma fé solista, ou as partes partilham contraponto e antifonia, quando não se unem num refrão?»
A Essência das Religiões é uma abordagem ensaística que procura traduzir diferenças e estabelecer pontes entre religiões autênticas. Porque todas elas representam «a abertura mais clara através da qual as inesgotáveis energias do cosmo penetram na vida humana»: do «podes ter o que queres» do hinduísmo à Boa Nova cristã, ao Caminho das Oito Vias budista ou ao ideal de verdadeiro cavalheiro de Confúcio, à quietude criativa taoísta, ao caminho da rectidão indicado pela lei islâmica ou à judaica demanda do significado.
Filho de missionários metodistas, Huston Smith nasceu em Soochow na China, em 1919, e ali viveu até aos 17 anos de idade. Ao longo da sua vida, foi professor nas mais prestigiadas universidades norte-americanas, praticou o cristianismo e, sucessivamente por períodos de dez anos, o hinduísmo vedanta, o budismo zen e o sufismo. A sua biografia é o exemplo do que propõe neste livro: aprender a escutar o outro, ainda que nos seja estranho.

A Essência das Religiões, Huston Smith, Lua de Papel, 496 págs.

SOL/ 17-01-2008
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

domingo, 25 de dezembro de 2011

Vida e Destino - Vassili Grossman

Todos ou só um

Vida e Destino, de Vassili Grossman sai finalmente em Portugal. 
É um dos maiores testemunhos literários sobre o totalitarismo no século XX.

Quase 900 páginas e nem um esboço de sorriso ou de conforto; antes, espanto, indignação, repulsa, empatia ou até mesmo um choro condoído. Vida e Destino é uma leitura difícil, mas, até à última página, indispensável. Das florestas do norte até ao rio Volga, nos bunkers de Stalinegrado, nos cubículos dos refugiados moscovitas em Kúbiechev ou em Kazan, na frente, nas trincheiras, nos hospitais de campanha, nos campos correcionais e nos campos de concentração, no gueto, nos vagões da morte, dentro da câmara de gás, nos laboratórios científicos de Moscovo, no gabinete de Estaline, na floresta por onde passeia um Hitler solitário. Entre Setembro de 1942 e Abril de 1943, estivemos lá. Connosco, caminharam entre a «vida passada» e a consumação de um destino individual e coletivo cerca de 160 personagens, todos ligados por algum fio à família de Aleksandra Vladimirovna, química no laboratório da fábrica de sabão de Kazan, e do cunhado, o cientista Víktor Pávlovitch (Strum), repudiado pelos seus pares. Vida e Destino, do judeu ucraniano Vassili Grossman, é uma das mais esclarecedoras leituras sobre as atrocidades do século XX. Uma obra-prima épica por fim traduzida do russo para o português (por Nina Guerra e Filipe Guerra), comparável em fôlego e minúcia a Guerra e Paz, de Tolstói, em profundidade a A Condição Humana e Eichmann em Jerusalém, de Hannah Arendt, em denúncia a Se Isto É um Homem, de Primo Levi.
Vassili Grossman nasceu em 1905, na cidade de Berdítchev, a «capital judia» da Ucrânia. Filho de um engenheiro e de uma professora de francês, ambos judeus emancipados, estudou engenharia química, mas acabou por tornar-se jornalista e escritor. No início da Segunda Guerra, isento do serviço militar, mas como correspondente do jornal militar russo Krasnaya Zvezda, cobre as batalhas de Moscovo, Stalinegrado, Kursk e Berlim. Será um dos primeiros repórteres a testemunhar a libertação dos campos de extermínio (de Treblinka e Majdanek – o seu artigo «O Inferno de Treblinka» servirá de prova nos julgamentos de Nuremberga).
Logo no final da guerra, Grossman é encarregado pelo governo de escrever um livro negro das perseguições aos judeus soviéticos, mas rapidamente percebe que o projeto não é para levar avante. Em 1961, a casa do escritor é assaltada por agentes do KGB, que apreendem anotações, documentos vários, manuscritos recém-concluídos de Vida e Destino (a denúncia fora feita pelo editor da revista para onde enviara um original) e até mesmo as fitas da máquina de escrever. Mikhail Suslov, líder ideológico do Politburo, comunica-lhe que aquele romance não verá a luz do dia nos três séculos seguintes. O dissidente Grossman apela em vão junto de Nikita Krushchev. Em 1964, morre, em Moscovo, vítima de cancro. Dez anos depois, em 1974, um dos dois originais sobreviventes de Vida e Destino é microfilmado pelo poeta Semion Lípkin. O físico nuclear Andrei Sákharov e o humorista Vladimir Voinovich conseguem fazê-lo sair do país e o romance é publicado em vários países, em 1980. Em 1988, é finalmente publicado na Rússia de Gorbatchev, 24 anos após a morte do autor.
Sequência do romance Por uma Causa Justa (sem tradução portuguesa), Vida e Destino expressa um total desencantamento com as lideranças soviéticas desde a revolução de 1917 e possui uma forte base autobiográfica. Como o personagem Anna Semiónovna, a mãe do escritor foi uma das 20 mil vítimas do pogrom de 15 de Setembro de 1941 em Bérditchev (o filho escreve por ela uma terrível carta de despedida). Como Evguénia Nikoláevna, a mulher de Grossman foi perseguida devido às posições políticas do seu primeiro marido. Como Víktor, Grossman assistiu à progressão do medo e do sistema vil da denúncia em nome da «confiança do partido». Como ele, procurou guiar-se pelo melhor que foi dado ao ser humano: «agir segundo a sua consciência».
Vida e Destino, cujo centro é a batalha de Stanilegrado, testemunha com ferocidade o mito da Grande Guerra patriótica, o élan de amor à pátria («é a guerra do povo, é a guerra sagrada...») que justificaria os 27 milhões de mortos russos na Segunda Guerra e, depois, serviria o generalíssimo Estaline e a instrumentalização da ortodoxia. Grossman denuncia, sobre tudo, uma «enorme submissão humana». Um traço novo? Não. «Esta submissão revela o aparecimento de uma nova e terrível força que influenciava as pessoas»: a superviolência dos sistemas totalitários. Capaz de vencer até a inextinguível aspiração humana à liberdade e à peculiaridade, «o verdadeiro e eterno sentido da luta pela vida».
Agindo segundo a sua consciência, o homem torna-se único, «irreplicável como tudo o que é vivo». Por isso, no campo de concentração, o velho bolchevique Mostovskói questiona um sentimento claro e definido: «entre os nossos sou nosso, entre os estranhos sou estranho». Liss, oficial alemão e teórico das SS, dir-lhe-á: «Quando nos olhamos na cara, um ao outro, olhamos não só para uma cara odiosa, mas também para o espelho. Nisto consiste a tragédia da época.» Enquanto o sentimento de individualidade enfraquece, o sentimento de destino cresce. Grossman prova-o em parágrafos burilados todos com o mesmo desvelo na descrição da vida e do destino de cada personagem.
No presente da guerra, cada um encontra-se com o seu próprio passado, revive-o, mima-o e ama-o. Alguns já não vivem, existem só, como «não-filhos do tempo», são executados como meras «figuras». Outros sentem «uma sensação de desamparo na tundra da vida». É quase insuportável a descrição dos massacres, da morte do pequeno David e de Sófia, de mãos dadas na câmara de gás, ou de Liudmila sangrando de dor sobre a campa do filho Tólia. Na verdade, a fatalidade do século XX foi, tal como Grossman defendeu, a de que «todo o inconciliável se conciliou». Impossível esquecer.

Vida e Destino, Vassili Grossman, Publicações Dom Quixote, 855 págs.

SOL/ 16-12-2011
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Anaïs Nin e Henry Miller



O estranho é que juntos e sozinhos somos tão humanos, tão suave e calorosamente humanos, e na nossa escrita turbulentos, túrgidos, espectrais, febris, monstruosos; encharcados em carnalidades homoeróticas. O meu estilo esmaltado, e o teu, muscular, pelejando, arrancando faíscas um ao outro.
Anaïs Nin para Henry Miller
Louveciennes, 16 Outubro de 1932

Todas as cartas de amor são ridículas, talvez porque, como James Joyce definiu no final de Ulisses, «o amor ama amar o amor». A constatação muda de figura quando, na década de 30 do século XX, dois candidatos a escritores decidem aliar à sua experimentação literária a procura de uma sintaxe para a paixão, a amizade e o sexo. Foi assim com a correspondência trocada durante duas décadas (1932-1953) entre Anaïs Nin (Paris, 1903-Los Angeles, 1977) e Henry Miller (NY, 1891-Califórnia, 1980). Um exemplo raro de parceria intelectual e fusão sexual e afectiva, entendidas por ambos também como fuga à convenção, destruição de tabus e afirmação de uma identidade e de uma voz individual. Primeiro editada pela Difel, com tradução de Manuel João Gomes, reaparece nas livrarias, pela Caleidoscópio (tradução de Tiago Marques), a compilação de mais de 250 exemplos de Cartas de Amor entre Nin e Miller, seleccionadas e prefaciadas por Gunther Stuhlmann em 1987.
Na introdução, Stuhlmann explica que a decifração, escolha e datação do material que lhe havia sido confiado por Anaïs obedeceu sobretudo ao «esforço para oferecer uma narrativa contínua», mais «romance literário» do que documento de uma paixão literata. É uma pena que, como diz, tenha deixado de parte «longas discussões acerca de Dostoiévski, Proust, Joyce, D. H. Lawrence; críticas pormenorizadas feitas ao trabalho em curso um do outro; reflexões acerca de filmes, livros, e assim por diante, frequentemente encaixadas em cartas de vinte ou mais páginas dactilografadas». O legado de afirmação feminina de Nin supera a mera autoria de literatura erótica e os epítetos agressivos que lhe colaram inclinações para a ninfomania, a poligamia, a bissexualidade ou, mesmo, o incesto. Miller foi bem mais do que um vagabundo boémio e libertino, predador sexual e autor de literatura durante anos banida nos EUA como de matriz pornográfica. O equívoco feito de lugares-comuns que envolveu durante décadas o nome e a relação dos dois pode até derivar da publicação póstuma da versão não expurgada dos diários de Anaïs e ter sido reforçado pelo sucesso do filme Henry & June (Philip Kaufman, 1990, com Maria de Medeiros no papel da escritora) ou da muito pouco reverente biografia Anaïs Nin, assinada, em 1995, por Deirdre Bair.
Aquilo a que Stuhlmann chama «material marginal à história pessoal» é, afinal, o mais interessante nesta correspondência compulsiva (só em 1932, ano em que se conheceram, Miller endereçou mais de 900 páginas a Anaïs). Um diálogo intelectual entre um homem e uma mulher num momento histórico muito importante, a batalha de explicação mútua entre duas pessoas que, muitas vezes em divergência teórica, ambicionam acima de tudo escrever uma literatura inovadora e apurada. O que as tornaria indestrutíveis, segundo Anaïs, era o facto de «no [seu] âmago, [estar] um escritor, não um ser humano». Na verdade, concretizaram mais percursoras tentativas de automaterialização do corpo mental e físico através da escrita do que um banal enredo com várias triangulações picantes.

Anaïs é talvez mais famosa pelas páginas eróticas de Passarinhos ou de Delta de Venus (traduzido por Luiza Neto Jorge, nos anos 80, para a Bertrand; reeditado pela Bico de Pena em 2006), livro que defendeu ter escrito apenas por questões de sobrevivência. Miller é identificado sobretudo pela autobiografia crua e pelo realismo brutal (para muitos, entendido ainda como mera 'obscenidade') de Trópico de Cancer (primeiro publicado em Paris, em 1934, e que muito deve ao apoio de Anaïs) ou Trópico de Capricórnio (1939). Pouco é reconhecido do esforço técnico das suas especulações quase-filosóficas, dramas simbólicos e associações surrealistas, presentes também na trilogia de «Rosa-Crucificação» (Sexus, 1949, Plexus, 1953, Nexus, 1960).
A biógrafa Deirdre Bair definiu Anaïs Nin como «uma grande autora menor». Igualmente com dificuldade Henry Miller será alguma vez aceite como autor relevante para os cânones literários mais exigentes. Produto da sua época, os dois escritores não resistiram à prova que o tempo fez do resultado literário daquilo que mais confiavam possuir: no caso dele, «talento», no dela, «instintos». Cartas de Amor mostra-nos, antes, a prevalência mútua da análise autobiográfica sobre qualquer outra motivação ou conquista literárias, com exemplo máximo em O Diário de Anaïs Nin (editado pela Bertrand, com introdução de G. Stuhlmann), registo que a escritora manteve dos 11 anos de idade até quase à morte. A herança de Nin e Miller concentra-se na força e originalidade da investigação de um passado individual, centro da criação de cada um deles. Uma espécie de autoetnografia, de esforço de recuperação do «tempo perdido» («Está tudo escrito em pedra», diz Miller), cuja dimensão mais íntima nos é dada a partir de um enredo de amor, entre duas pessoas sem medo do 'sexo' e com fome de liberdade perfeita, porque criativa.

Cartas de Amor, Anaïs Nin e Henry Miller, Caleidoscópio, 366 págs.

SOL/ 10-07-2009
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Dublinesca - Enrique Vila-Matas

Requiem em Dublin

Na cidade de Ulysses, Vila-Matas enterra a era de imprensa
e os grandes editores.

Desde que se reformou e deixou de beber, Samuel Riba está cada vez mais fechado sobre si mesmo. Agora, ele, que é um editor barcelonês da velha guarda, culto e obstinado na paixão livresca, compara o seu auto-isolamento ao dos 'hikikomori', jovens japoneses «autistas informáticos» que trocam o mundo por uma clausura total à frente do computador ou da televisão. Entretanto, num sonho premonitório, Riba recria Dublin, onde nunca esteve, como cenário de fuga e sentido para a sua «vida de catálogo», «tradicional, clássica, edipiana e conservadora». Será em Dublin e de dentro do Ulysses de James Joyce, mas também em Nova Iorque ou nos livros de Paul Auster, realidades oníricas tão reais que se convertem em personagens, que o editor de 60 anos fará as honras ao iminente funeral da era de Gutenberg e ao «funeral, sempre demorado, da literatura como arte em perigo». Samuel Ribas, Dublin, Ulysses, Joyce e a literatura protagonizam o mais recente romance do espanhol Enrique Vila-Matas, Dublinesca, nas livrarias pela Teorema (curiosamente, esta edição serve de justíssima homenagem a Carlos Veiga Ferreira, o histórico editor da Teorema, recentemente afastado da chancela como consequência da sua integração no grupo editorial Leya).
Dublinesca não é um romance fácil, mas também o não é toda a grande literatura, à qual Vila-Matas dá valoroso contributo e presta homenagem. Como sempre, a intertextualidade (diálogo entre textos) e a metaficção são as maiores marcas de estilo do autor, pleno de complexos cruzamentos. A ambição narcisa de Vila-Matas é mais uma vez servida pela associação à grande literatura. Todavia, desta vez, os fantasmas que perseguem Riba, o seu «zunzum do mal do autor» frustrado, os tiques de quase demente defesa de uma cediça visão da literatura, o desencantamento perante o amor, os meios literários e os escritores («uns porcos»), humanizam o autor, tão presente nos seus livros.
A 16 de Junho, no Bloomsday, Ribas-como-Bloom (protagonista de Ulysses), despedir-se-á de um morto e comemorará os aniversários da grande literatura e do casamento dos pais (ou seja, a sua própria existência). Dublinesca, inteligentíssima paródia trágica, é um testamento sobre todos os que leem a vida literariamente.

Dublinesca, Enrique Vila-Matas, Teorema, 264 págs.

SOL/ 18-03-2011
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

domingo, 18 de dezembro de 2011

Sartoris, William Faulkner

Diga Yoknapatawpha

Em Sartoris, Faulkner criou o mais famoso condado da história da literatura.

É um «condado apócrifo» e situa-se em Oxford, noroeste do Mississípi, numa cartografia imaginária criada pelo escritor William Faulkner (1897-1962, Nobel da Literatura 1950) para acolher a ação de 16 dos seus 19 romances. Yoknapatawpha, palavra que todos os fãs da grande literatura devem decorar, surgiu primeiro no romance Sartoris (ainda sob o nome de Yocona), regressado às livrarias em nova tradução (a anterior data de 1958) e com prefácio pela escritora Lídia Jorge.
Com 6200 metros quadrados de área e mapeado no romance Absalão, Absalão, o condado de Yoknapatawpha (o termo une duas palavras de um dialecto indígena local e, segundo o autor, significa: «a água deslizando lenta pela planície») é coberto por florestas de pinheiros e vastas plantações, propriedade de uma poderosa aristocracia branca esclavagista, cuja queda após a Guerra de Secessão Faulkner retrata nos seus livros. O coronel John Sartoris, falecido em 1876, cerca de 40 anos antes do início de Sartoris, será o fantasma-patriarca «de coisas esplendorosas e desastrosas» que tutela este território: um limbo entre um passado épico e um presente decadente em que se movem, como sobre areia movediça, algumas das magistrais personagens-sonâmbulas de Faulkner (os Sartoris, os Benbow e os Snopes). Assim se sucede uma década na história dos Sartoris que sobrevivem ao coronel: o filho, velho Bayard; a irmã, Miss Jenny; e o bisneto, jovem Bayard, recém-regressado da Primeira Guerra, assombrado pela morte do irmão-gémeo, depois casado com Narcissa Benbow.
Recusado por um primeiro editor que o achou «demasiado difuso», o romance de 600 páginas intitulado Flags in the Dust sairia por fim, em 1929, com o título Sartoris e menos 200 páginas. Faulkner considerou-o «O livro» e nele cabe, numa cadência bastante acessível, a essência dos seus conflitos: som, fúria e silêncio, escuridão e luz, perda e remorso, imitação ou rejeição, um diálogo amaldiçoado por espectros. O sul mítico faulkneriano é como «um sonho meio recordado», um mundo «onde o passado parece mais vivo do que os vivos» (Richard Gray). Difuso, sim, mas prenúncio da complexa captação da fluidez dos pensamentos das personagens que fará o melhor de Faulkner, sito em Yoknapatawpha.

Sartoris, William Faulkner, Publicações Dom Quixote, 351 págs.

SOL/29-07-2011
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

sábado, 17 de dezembro de 2011

Nagasáqui - Éric Faye


A vida num armário

Com um insólito caso real, Éric Faye convenceu a Academia Francesa.

Durante cerca de um ano, uma mulher vive clandestina no topo de um armário da casa de um celibatário. A notícia, publicada em vários jornais japoneses em 2008, atraiu Éric Faye (n. 1963), jornalista da agência de notícias Reuters e escritor, que decidiu transformá-la num pequeno romance. Nagasáqui venceu o Grande Prémio de Romance da Academia Francesa em 2010 (por nove votos, contra seis para Naissance d’un Pont, de Maylis de Kérangal). Narra a «investigação mais minuciosa alguma vez conduzida por uma desconhecida sobre um desconhecido» e a inesperada ligação entre duas solidões-limite que vivem contíguas e se tocam, sem jamais se encontrarem.
Nagasáqui talvez pretenda ser uma metáfora sobre os efeitos mais radicais da crise económica — «O Eu a todo o custo é o fim do homem. A Crise torna os homens um pouco mais sós. […] O nós morre.» — e sobre a cidade e a província homónimas: «Nagasáqui permanecera muito tempo como um armário no vasto apartamento do Japão […] e o império, ao longo de todos esses duzentos e cinquenta anos, fingira, por assim dizer, ignorar que um passageiro clandestino, a Europa, se instalara naquele guarda-fatos...» Todavia, enquanto falham redondamente estas pretensões mais rebuscadas do autor, o romance encontra a sua força na descrição concisa do encontro doméstico e muito original entre dois universos dramaticamente solitários.
Shimura Kobo tem 56 anos, é um metereologista deprimido e obsessivo, um «novelo de nervos enfeitiçados pelas cigarras». Quando começam a desaparecer-lhe iogurtes do frigorífico, instala uma câmara na cozinha e passa a vigiar à distância o «panorama glacial»  da sua solidão.  A forma de mulher que caça na ratoeira surge como uma projeção da vida a dois que ele poderia ter tido, mas num primeiro impulso, irreversível, Shimura decide denunciar a mulher, condenando-a à prisão. O acontecimento irá forçá-lo a abrir-se, da bolha em que se refugiara, para «o mar largo da vida».
No final, conhecemos a versão da clandestina, 58 anos, desempregada e sem-abrigo, instalada naquela casa por motivos tão práticos como comoventes. Mas Nagasáqui é um romance interessante sobretudo pelo que deixa por explicar, como acontece sempre com as histórias e acasos da vida cuja profundidade supera a própria ficção.

Nagasáqui, Éric Faye, Gradiva, 99 págs.

SOL/ 09-12-2011
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)