Nunca ninguém se perdeu, tudo é verdade e caminho.
Fernando Pessoa



terça-feira, 30 de novembro de 2010

Annie Proulx - Um Livro Por Dia

Atar e desatar nós

Este é o relato de alguns anos na vida de um sujeito corpulento, desajeitado, “tropeçando sem ir a lado nenhum”. De como, após várias tragédias pessoais, ele trocou o estado de Nova Iorque pela ilha no leste canadense onde os seus antepassados viveram durante um século, e ali terminou por conquistar “beijos autênticos da Terra Nova, com sabor a tarte de barbatana de foca”. Esta é a história de The Shipping News, o livro que chega a Portugal doze anos depois de tornar famosa a norte-americana Annie Proulx (cujo conto “Brokeback Mountain” foi levado ao cinema por Ang Lee). No centro, está Quoyle, o anti-herói que “viveu momentos de todas as cores, proferiu fulgurantes brilhos, tomou atenção ao rico som das ondas contando pedras, riu e chorou, reparou nos pores-do-sol, escutou melodias na chuva, disse Aceito.”
The Shipping News implica uma leitura singular. Não foi à toa que lhe foram concedidos os prémios Pulitzer, o National Book e Irish Times International, e que resistiu mesmo à discutível adaptação ao cinema por Lasse Hallström. Construído como uma rede de pesca, cheia de nós que cabe ao leitor desatar, o romance reproduz os avanços e recuos de Quoyle na procura de uma vida, e de uma personalidade, novas. Repleto de referências às actividades ligadas ao mar e de crónicas do quotidiano dos habitantes de remotos lugarejos como Unha-De-Fateixa ou Saca de Farinha, sustenta-se em grande parte na descrição da vida e cultura da Terra Nova. O sabor delicioso desse ambiente mantém-se intacto na edição portuguesa graças à excelente tradução de Nuno Batalha, que optou por traduzir topónimos e estabelecer correspondências entre a gíria e as expressões idiomáticas terra-novenses e diversos regionalismos do Português, sobretudo expressões açorianas. Ao leitor, embalado pelo estilo original de Annie Proulx, pede-se que acompanhe o narrador nos seus ângulos mais ou menos apertados de observação de cada personagem. E que tome especial atenção ao significado metafórico das epígrafes de cada capítulo, retiradas de O Livro dos Nós de Ashley ou do Dicionário de Marinharia.
Como um nó de enforcado, que é primeiro atado com folga e depois apertado aos poucos, as histórias de Quoyle, da sua tia e das suas duas filhas ou dos seus colegas no jornal “Grulhaço Terra-Novense”, prendem-nos a uma navegação poética. No final, como Quoyle, o leitor “foi inundado por um sentimento de pureza renovada, uma sensação de acontecimentos em trémulo equilíbrio. Tudo, tudo parecia portentoso, imbuído de importância”.

The Shipping News, Annie Proulx, Cavalo de Ferro, 348 págs.


SOL/ 07-10-2006
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Umberto Eco - Um Livro Por Dia

Feio, mas belo

Desde o lançamento, em 2004, o ensaio «História da Beleza», do filósofo, semiólogo e romancista Umberto Eco, atingiu o meio milhão de exemplares vendidos em todo o mundo. Nada a estranhar; aos 75 anos, Eco continua a ser um formidável pedagogo, generoso na partilha de uma vertiginosa erudição quer o tema seja a comunicação, a linguística, a filosofia ou, como neste caso, a estética e a história de arte. O conceito a explorar era, ele mesmo, cativante: quem não se interessa pelo que é belo? E, no entanto, três anos depois, chega a prova dos nove. Será capaz de cativar tantos leitores esta «História do Feio» que o autor italiano acaba de apresentar na Feira do Livro de Frankfurt e já se encontra em tradução para 27 línguas?
Umberto Eco já garantiu que se divertiu muito mais a escrever sobre a fealdade do que sobre a beleza. E voltou a advertir que, para ele, o feio não é o oposto do belo, mas antes um valor distinto, com distinta evolução histórica e canónica. «História da Beleza» partira de anotações esquecidas durante 40 anos nas gavetas do ensaísta e tinha por detrás uma história de amor (Eco casou-se com a colaboradora que o ajudou no arranque inicial do projecto). Escrito em parceria com Girolamo de Michele, resultara numa viagem intelectual, cronológica e restringida ao universo ocidental, desde o conceito grego de belo como uma proporção ou da beleza como verdadeira religião no século dezanove até à total democratização estética do século XX ou à esquizofrenia da procura e da perda do belo no século XXI. Para reconstituir esse percurso, fôra possível recorrer a uma vasta série de testemunhos teóricos, muitos deles possibilitando conferir se as noções e representações artísticas do belo correspondiam aos gostos das pessoas comuns da mesma época. Quando Eco decidiu escrever sobre o feio, o caso mudou de figura.

Manson ou Monroe?

Na introdução de «História do Feio», o autor esclarece: «[Ao feio] quase nunca se dedicaram tratados extensos, somente alusões parentéricas e marginais. Portanto (…) uma história da fealdade terá, na maioria dos casos, de ir procurar os seus documentos às representações visuais ou verbais de coisas ou pessoas, de algum modo, consideradas “feias”.» Ou seja: feio é a quem lho parece. O desafio revelou-se maior e ainda mais estimulante porque, desde sempre, a fealdade provoca movimentos passionais ligados mais a instintos biológicos do que a juízos estéticos. O feio está ligado ao medo e ao desconhecido, a «reacções de desagrado ou, até, de violenta repulsa, horror ou pavor». Por isso, embora tenha a mesma estrutura do ensaio antecessor (formato de álbum ilustrado, com reproduções de obras da arte e brilhantes excertos de textos de pensadores, poetas e romancistas), esta «História do Feio» contém muito mais elementos de surpresa.
No último dos 15 capítulos de texto inspirado deste livro, Eco procura definir as actuais noções de fealdade. Para confirmar que feio e belo convivem de forma neutra, faz a seguinte pergunta: como é possível que hoje os jovens admirem os rostos de Brad Pitt ou Nicole Kidman, belos como os retratados por um pintor renascentista, e, ao mesmo tempo, se maquilhem, tatuem e furem com alfinetes «de modo a assemelharem-se mais com Marilyn Manson do que com Marilyn Monroe?». Mais do que dar respostas originais ou definitivas, o ensaísta ilumina e cruza referências e pistas para reflexão.
O que este livro garante é que foi assim ao longo de mais de três mil anos. A fealdade sempre teve três manifestações diferentes: o que é «feio em si mesmo» (como um excremento), «feio formal» («um desequilíbrio na relação das partes com o todo», como uma pessoa desdentada) e a «representação artística dos dois». Eco segue estes três pontos de referência, da filosofia e mitologia gregas e dos pontos de vista teológico-metafísicos medievais à tradição antifeminina maneirista e barroca; das representações do Diabo, da bruxaria e do sadismo ao interesse por monstruosas «curiosidades científicas»; do grotesco como estética romântica à adesão à fealdade como afirmação de vanguarda ou fenómeno gregário. Ao longo de 454 páginas e milhares de imagens e pequenos enredos, o feio surgirá também como o desmedido, o demoníaco, o horripilante, o cómico, o obsceno e, até mesmo, o tecnológico. Na última página, ao terminar a aventura, provavelmente vamos até achá-lo belo.
 
História do FeioUmberto EcoDifel454 págs.
História da BelezaUmberto EcoDifel438 págs.
SOL/13-10-2007
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

domingo, 28 de novembro de 2010

Camille Paglia - Um Livro Por Dia

O outro sexo

«Personas Sexuais», finalmente traduzido em Portugal, reavalia radicalmente a representação da sexualidade humana na arte ocidental desde a Antiguidade e, como tal, pertence ao cânone das  obras-choque do século XX. Porque é passível de provocar azias várias, e também porque tem quase 700 páginas repletas de remissões em espiral, é desaconselhada a quem não retiram prazer inexcedível do exercício crítico de pensar. Em 1990, a edição de estreia, «Personas Sexuais: Arte e Decadência de Nefertiti a Emily Dickinson» (em nove anos recusada por sete editoras), lançou aquilo que os intelectuais norte-americanos passaram a temer como «o furacão Camille».
Professora Associada de Humanidades no Philadelphia College of Performing Arts, Camille Paglia, 60 anos, nova-iorquina, filha de imigrantes italianos, é hoje uma das mais destacadas filósofas sociais. Em 1995, a revista «Playboy» apresentou-a como uma «antifeminista feminista, anti-homossexual lésbica e antiliberal liberal». Paglia cultivou esta postura com a eficácia de um estilizado «rottweiller académico» e tornou-se uma explosiva alquimista na fusão teórica de sexo, arte e literatura. Principais lemas: «a bissexualidade deveria ser a norma universal», «a liberdade e a revolução sexuais são ilusões modernas», «o feminismo traiu as mulheres, alienou o homem e a mulher e substituiu o diálogo pelo politicamente correcto» ou «a melhor arte resulta apenas de egos mutilados».
Segundo os detractores, Paglia é uma pedante exibicionista. Talvez, mas as suas mensagens neoconservadoras (como «a religião e o casamento são historicamente as melhores defesas contra o caos») afastam-se de modo radical da autocomplacência, o vírus mais nefasto da contemporaneidade. Em «Personas Sexuais», como em «Vampes e Vadias» (Relógio d’Água, 1997), Paglia é uma subversiva iconoclasta que arrasa muitos dos enquistamentos teóricos que turvam a cultura. Num voo de falcão, disseca as várias «personas» que encarnaram na «personalidade» da cultura ocidental a luta demoníaca, pagã ou mesmo sádica, entre natureza e sexo, entre a mulher (identificável com a natureza) e o homem (detentor do poder da representação). Porque, para ela, «a arte é a forma a tentar acordar do pesadelo da natureza».

Personas Sexuais, Camille Paglia, Relógio D’Água, 692 págs.

SOL/ 22-12-2007
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

sábado, 27 de novembro de 2010

W. G. Sebald - Um Livro Por Dia


Sebald, modo de usar

Adverte-se o leitor para que, na leitura deste Os Anéis de Saturno, atente primeiro no tempo que corre fluido no virar das páginas. Em seguida, concentre-se na distância e no necessário movimento de afirmação da verdade e da mentira nas coisas e nas pessoas. Tempo, movimento e distância são marcas fundamentais na curta obra de W. G. Sebald, revelada em Portugal pela Teorema.
Winfried Georg Maximilian Sebald, nascido em 1944 numa aldeia dos Alpes da Baviera e falecido em 2001, com 57 anos, num acidente de viação, é um dos nomes-chave da literatura europeia dos anos noventa. Autor de culto, este professor de Literatura tornou-se nos seus últimos dez anos de vida o escritor-fantasma daqueles cujas vozes foram silenciadas. Austerlitz, o seu último romance (primeiro a ser traduzido para português, em 2004), História Natural da Destruição e Os Emigrantes: Quatro Contos Longos são também livros de fantasmas. Fantasmas da guerra e do Holocausto, fantasmas da arte europeia, fantasmas domésticos e fantasmas universais. Imagens espectrais que surgem também nas fotografias, mapas e ilustrações cobertos pelo grão do tempo a preencher as páginas de cada livro e a compor uma narrativa paralela à do texto.
Numa entrevista histórica concedida pouco antes de morrer, Sebald explicou a génese de Os Anéis de Saturno. Desde 1966 que trocara a Alemanha por um percurso académico em Inglaterra. Um dia, em 1994, teve a ideia de subsidiar uma viagem a pé ao longo da costa de East Anglia com a escrita de uma série de artigos para jornais alemães. Daí resultaram estes dez capítulos de uma pausada meditação viandante escrita na primeira pessoa.
“Nunca gostei de fazer as coisas sistematicamente. (…) Tem de se pegar em materiais heterogéneos de forma a levar a nossa mente a criar algo que não fizera antes.” Sebald, o caminhante, recolhe na paisagem sinais que evocam temas tão diversos como a escrita de Conrad, as telas de Rembrandt, a destruição da floresta, a China imperial, a infância em Berlim ou uma partida de dominó. Efabulação e realidade fundem-se num processo de descoberta determinado por coincidências e associações.
Romance, enciclopédia, autobiografia, livro de viagem? Tal como as restantes obras do autor, Os Anéis de Saturno é incatalogável graças à originalidade de uma forma narrativa. Sebald é uma voz misteriosa que movimenta o leitor através do tempo.

Os Anéis de SaturnoW. G. Sebald, Editorial Teorema, 296 págs.


SOL/ 25-11-2006
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Jonathan Safran Foer - Um Livro Por Dia

O sangue dos outros

Para Jonathan Safran Foer, comer animais de produção industrial é desumano.

Aviso: se quer continuar alegre e despreocupado ao comprar e comer carne e derivados, sobretudo de aves ou porco, não leia este livro. MESMO. Caso não siga o conselho, na primeira ida ao talho após a leitura de Comer Animais, de Jonathan Safran Foer, vai corar, ter vontade de vomitar ou fugir a sete pés.
É verdade que a realidade nele descrita e investigada pelo autor durante três anos (até 2009) é, no essencial, a da indústria agropecuária nos EUA. Todavia, a Europa e o resto do mundo não escapam a este criativo e veemente libelo por uma ética na criação e abate dos animais. O autor quer que sejamos «omnívoros mais honrados». Para tal, mostra-nos com detalhes chocantes um sistema que nos alimenta de uma forma massiva e mais barata graças a crueldade, maus-tratos e sadismo extremos aplicados aos animais.
Aos 33 anos, Jonathan Safran Foer tem dois  romances publicados: Está Tudo Iluminado (2002, Temas e Debates, pesquisa ficcionada dos seus ascendentes judeus na Europa de Leste) e Extremamente Alto e Incrivelmente Perto (2005, Quetzal, sobre o 11 de Setembro). Comer Animais possui as mesmas talentosas simplicidade, inteligência e ironia que o destacam na ficção. Foer pensa neste livro «como uma novela», mas ele é também um manifesto autobiográfico e um ensaio-reportagem. A comida é narrativa, diz, referindo os dois atributos dados pela tradição judaica: «alimenta-nos e ajuda-nos a recordar». Por isso, Comer Animais conta muitas histórias e tem duas figuras tutelares: a do filho recém-nascido do autor, motivo da pesquisa; e a da avó, refugiada da Segunda Guerra, a memória-viva do valor da comida.
Comer Animais analisa conceitos e evolução histórica, faz remissões eruditas, fala de poluição, manipulação genética, doenças, hábitos e crenças. Mas o enfoque principal é, sempre, nos animais-vítimas, sobretudo as aves e os porcos, no seu provável horrível sofrimento quando sujeitos à crudelíssima manipulação humana e na pavorosa qualidade da carne consumida nos EUA. A maioria dos exemplos são repugnantes, mas também há outros, de eficiência, ética e compassividade. Foer visita matadouros e unidades agropecuárias familiares, descreve ou infiltra-se em pecuárias industriais e reproduz excelentes depoimentos para todos os ângulos. Quando fala do tabu de comermos animais de estimação, dá-nos uma receita de cão filipina. Quando acha que já os circunstanciou o suficiente, atira-nos números (por ano): 10 mil milhões de animais terrestres abatidos para consumo nos EUA; 140 mil milhões de dólares de rendimento para a indústria agropecuária; 21 mil animais inteiros comidos, em média, por cada americano durante a vida e 76 milhões de americanos doentes, por ano, por causa de alimentos; 50 mil milhões de aves de criação criadas e mortas em todo o mundo. Por fim, deixa-nos duas opções: o vegetarianismo ou a luta pelo bem-estar dos animais até chegarem ao nosso prato. A indiferença é uma impossibilidade.

Comer Animais, Jonathan Safran Foer, Bertrand, 336 págs.

SOL/ 19-11-2010
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

José Cardoso Pires - Em Memória (1997)


Da mor­te, com hu­mor

Du­ran­te oi­to dias, o escritor Jo­sé Car­do­so Pi­res (1925-1998) es­te­ve sem me­mó­ria a lu­tar com a mor­te. Em De Profundis, Valsa Lenta con­ta co­mo um ho­mem po­de rir à gar­ga­lha­da quan­do diz adeus à vi­da. Em 1997, o livro apresentava-se assim:

O iní­cio do pe­sa­de­lo co­me­çou com uma per­gun­ta de car­ti­lha: «Co­mo te cha­mas?» A ma­nhã desse 12 Ja­nei­ro de 1995 es­ta­va cin­zen­ta, e pá­li­do co­mo ela Jo­sé res­pon­deu: «Pa­re­ce que é Car­do­so Pi­res.» Dois anos de­pois, o es­cri­tor ain­da pensa nes­te «é» que mar­cou uma per­da de iden­ti­da­de que du­rou oi­to dias. Aci­den­te vas­cu­lar ce­re­bral diag­nos­ti­ca­ram en­tão os mé­di­cos pe­ran­te um ho­mem a quem um coá­gu­lo de san­gue alo­ja­do no cé­re­bro rou­ba­ra a me­mó­ria e a ca­pa­ci­da­de de co­mu­ni­car. «Mor­te ce­re­bral», di­fun­diu a imprensa. Jun­tan­do­–se a to­dos aque­les que até ho­je re­la­ta­ram ex­pe­riên­cias de pro­xi­mi­da­de com a mor­te, tal­vez com­pe­li­do por aqui­lo a que os téc­ni­cos cha­mam «sín­dro­ma de Lá­za­ro», Jo­sé Car­do­so Pi­res (autor de A Balada da Praia dos Cães, O Delfim ou Alexandra Alpha) es­cre­veu De Pro­fun­dis, Val­sa Len­ta,  uma cró­ni­ca de co­mo a mor­te se lhe anun­ciou.

Os de­ta­lhes da his­tó­ria es­tão to­dos nes­te vo­lu­me de 69 pá­gi­nas. Re­jei­tan­do as ex­pli­ca­ções mé­di­cas e ba­sean­do­–se ape­nas no re­la­to de quem o acom­pa­nhou e na sua par­ca «me­mó­ria du­ma des­me­mó­ria», Car­do­so Pi­res des­cre­ve uma «mor­te bran­ca». E ri­–se, ri­–se mui­to a ca­da pá­gi­na, mos­tran­do os den­tes como serras. A iro­nia da coi­sa, só a per­ce­beu de­pois de ter des­pe­ja­do as pa­la­vras to­das no pa­pel e ao es­co­lher o sub­tí­tu­lo. Val­sa Len­ta, sa­bo­rea­da a ca­da pas­so, com o bra­ço a fa­zer fi­gas por trás da cin­tu­ra da mor­te. Ex­pli­ca: «A iro­nia do re­la­to não foi pro­po­si­ta­da. Só de­pois per­ce­bi que há um hu­mor na mor­te quan­do vis­ta à dis­tân­cia.»

MORTO DE RISO

Há uns me­ses, ao en­con­trá­–lo com o espírito em forma, al­guém lhe dis­se: «Es­tá com um óp­ti­mo as­pec­to.» A res­pos­ta saiu­–lhe mor­daz e sem pon­to de ex­cla­ma­ção. «Pois, não es­tou mor­to.» In­cons­cien­te­men­te, o sar­cas­mo to­ma­ra con­ta do seu ca­so. Co­mo acon­te­ce­ra já com ou­tros, lem­bra ho­je, sen­ta­do no seu es­cri­tó­rio da ca­sa de Lis­boa.
Fa­la no ca­so de um con­de­na­do à mor­te nos EUA que an­tes de ser le­va­do pa­ra o lo­cal da exe­cu­ção pá­ra a lei­tu­ra de um li­vro e do­bra o can­to da pá­gi­na on­de fi­cou. Ou do es­cri­tor Rus­sel Baker que con­ta co­mo um dia a sua avó lhe te­le­fo­na e diz: «É só pa­ra sa­ber se vais ao meu fu­ne­ral ho­je à tar­de.» Ma­ra­vi­lhas de hu­mor ne­gro, cha­ma­–lhes Car­do­so Pi­res. Com­pa­rá­veis às con­ver­sas dos dois ho­mens com quem par­ti­lhou o quar­to no Hos­pi­tal de San­ta Ma­ria, «dois pas­sa­rões ar­rui­na­dos, a agre­di­rem­–se e sem cons­ciên­cia de que se re­fu­giam no hu­mor pa­ra fu­gir ao me­do que têm da mor­te». Ou a co­mo se cha­ma­va «feio» a si pró­prio, far­to de pro­cu­rar ou­tro no­me na me­mó­ria. Ou à imen­sa pro­sá­pia com que pen­sa­va res­pon­der cer­to aos in­qué­ri­tos bá­si­cos dos mé­di­cos. «On­ze me­nos no­ve quan­tos são?» «Na­da, se­nho­ra dou­to­ra. Qual­quer coi­sa no­ves fo­ra é na­da.»
Só quem vol­tou pa­ra con­tar é que po­de rir­–se as­sim, ga­ran­te o es­cri­tor. «Tu­do o que diz res­pei­to à mor­te ou à sua apro­xi­ma­ção é vi­vi­do sem hu­mor, por­que, por na­tu­re­za, ela ins­pi­ra pâ­ni­co e não nos dei­xa ver es­se la­do. Quan­do nos sa­fa­mos de­la, fi­xa­mos. Sa­ta­nás de­ve­–se far­tar de go­zar, e com ra­zão, com os si­nais de hu­mor da mor­te. O que eu vi na­que­le hos­pi­tal, o que eu sen­ti... tu­do aqui­lo tem um hu­mor ter­rí­vel.»

EU ESTIVE LÁ

Pas­sou pe­la mor­te, Jo­sé? «Pen­so que foi um re­gis­to do que po­de­rá ser. Um apa­ga­men­to que só não foi co­mo a mor­te por­que não era ab­so­lu­to. Às ve­zes, vi­nham cla­rões, lam­pe­jos de me­mó­ria... Co­mo o mo­men­to em que olho pa­ra a pa­la­vra «BA­NHO», ve­jo o «B» e o «N» in­ver­ti­dos, pas­sa­–me uma le­gen­da na ca­be­ça e per­gun­to­–me se não es­tou a ca­mi­nhar pa­ra a lou­cu­ra.» Car­do­so Pi­res so­freu um aci­den­te vas­cu­lar ce­re­bral (AVC) transitório porque não implicou uma lesão cerebral significativa. Os ACV, alterações da estrutura das artérias causadas por factores de risco como o envelhecimento ou a hipertensão, é in­di­ca­do pe­la Or­ga­ni­za­ção Mun­dial de Saú­de co­mo a principal cau­sa de mor­te nos paí­ses de­sen­vol­vi­dos. Em Portugal, surge à frente do enfarte do miocárdio. Mais de 140 mil nor­te­–ame­ri­ca­nos mor­rem anual­men­te por es­te mo­ti­vo e representam ape­nas três por cen­to do to­tal de in­di­ví­duos afec­ta­dos. Ou­tro ter­ço sai des­ta ex­pe­riên­cia com in­ca­pa­ci­da­des per­ma­nen­tes, en­tre elas a in­co­mu­ni­ca­bi­li­da­de to­tal. Sor­te ou maes­tria da Ciên­cia, o es­cri­tor po­de ho­je di­zer que con­se­guiu fu­gir «a uma mor­te amá­vel».
Dis­sol­vi­da a me­mó­ria, em­bo­ta­da a sen­si­bi­li­da­de e so­fren­do de uma afa­sia fluen­te gra­ve, «não era ca­paz de ge­rar as pa­la­vras e cons­truir as fra­ses que trans­mi­tis­sem as ima­gens e os pen­sa­men­tos que al­gu­res no seu cé­re­bro iam ir­rom­pen­do». As­sim o  des­cre­ve o neuroci­rur­gião João Lo­bo An­tu­nes na sua Car­ta a um Ami­go­–No­vo, pre­fá­cio pa­ra De Pro­fun­dis. E mes­mo nes­te es­ta­do, Car­do­so Pi­res in­ven­ta­va um neo­lo­gis­mo pa­ra no­mear todos os ob­jec­tos: «si­mo­so».
De­ci­diu de­pois criar um epí­te­to pa­ra aqui­lo por que pas­sa­ra. Cha­mou­–lhe «mor­te bran­ca e nu­la». Por­que era as­sim que olha­va o mun­do. «Via as pes­soas mas não as re­co­nhe­cia — só re­co­nhe­cia a mi­nha mu­lher e, por ve­zes, es­que­cia­–me do no­me de­la. Tu­do ti­nha uma cla­ri­da­de es­pan­to­sa e as pes­soas per­diam o vul­to. Não en­con­trei Nos­sa Se­nho­ra, nem Sa­ta­nás, nem nin­guém. Tu­do era bran­co e nu­lo.», con­ta.

ACIDENTE, TRANSITÓRIO

O re­la­to de cal­ma coin­ci­de com as re­fle­xões so­bre a near­–death ex­pe­rien­ce apre­sen­ta­das por Sherwin B. Nu­land, pro­fes­sor de Ci­rur­gia e His­tó­ria da Me­di­ci­na na Uni­ver­si­da­de de Ya­le, no seu li­vro How We Die. Se­gun­do ele, a paz sen­ti­da por quem es­teve mui­to per­to da mor­te cor­res­pon­de a um «me­ca­nis­mo de­fen­si­vo de des­per­so­na­li­za­ção», re­sul­ta­do de uma evo­lu­ção bio­ló­gi­ca de mi­lhões de anos que tem co­mo fun­ção pre­ser­var a vi­da das es­pé­cies. Car­do­so Pi­res re­fe­re o qua­se com­ple­to des­pren­di­men­to com que olha­va tu­do à sua vol­ta. Co­mo um an­cião que in­cons­cien­te­men­te se des­li­ga dos afec­tos por­que sa­be que vai mor­rer em bre­ve. «Des­li­ga­va­–me das coi­sas por­que sa­bia que só era ca­paz de as fi­xar du­ran­te al­guns se­gun­dos. Acei­ta­va o mun­do com um fa­ta­lis­mo tran­si­gen­te.», des­cre­ve. Ci­ta­do no li­vro de Nu­land, o psi­có­lo­go Ke­neth Ring en­tre­vis­tou 49 pessoas que haviam sido de­cla­ra­das co­mo cli­ni­ca­men­te mor­tas, por doen­ças ou le­sões re­pen­ti­nas. A gran­de maio­ria in­di­ca co­mo ele­men­tos bá­si­cos da sua ex­pe­riên­cia «paz, sen­sa­ção de bem es­tar, se­pa­ra­ção do cor­po, en­tra­da na obs­cu­ri­da­de, per­cepção da luz e en­tra­da na luz».
Ho­je, sen­ta­do no seu es­cri­tó­rio da ca­sa de Lis­boa, Jo­sé Car­do­so Pi­res re­lem­bra co­mo, ao sair do Hos­pi­tal de San­ta Ma­ria nu­ma ma­nhã de In­ver­no, se sen­tiu pro­fun­da­men­te re­co­nhe­ci­do e ge­ne­ro­so. «O mun­do era uma coi­sa es­pan­to­sa, as co­res ti­nham mu­da­do... Não sei se era Pri­ma­ve­ra ou se fui eu que a fiz. Apenas noutro momento da vida — com a minha mulher, antes de casarmos — me senti tão agradecido por estar vivo.» De vol­ta a ca­sa e num ges­to mui­to pou­co ha­bi­tual, cor­reu pa­ra a sa­la on­de co­me­ça­ra o pe­sa­de­lo. «Lem­bro­–me que fiz o mes­mo que os ga­tos: uma es­pé­cie de fi­xa­ção do ter­re­no. Dei a vol­ta à ca­sa, sen­tei­–me nes­te es­cri­tó­rio que nun­ca uso e, a co­mer o par­go co­zi­do que pe­di­ra pa­ra jan­tar, es­ti­ve uma da­ta de tem­po sem pen­sar em na­da, co­mo se es­ti­ves­se bê­ba­do, imen­sa­men­te gra­to a um mun­do que me pa­re­cia ab­so­lu­ta­men­te ma­ra­vi­lho­so.» O en­can­ta­men­to du­rou um mês, du­ran­te o qual mu­dou mui­to, «pa­ra me­lhor». De­pois, «tu­do vol­tou ao nor­mal».

FÉ NA CIÊNCIA

Pro­fun­da­men­te cép­ti­co, o es­cri­tor pas­mou pe­ran­te a sua to­tal re­cu­pe­ra­ção, ope­ra­da tão subi­ta­men­te quan­to a que­da no va­zio. «O fas­ci­nan­te dis­to tu­do é que não hou­ve re­cu­pe­ra­ção ne­nhu­ma. Tu­do se pas­sou co­mo se fos­se um des­maio súbi­to, um so­no mis­te­rio­so. Co­mo um ti­po que põe o su­jei­to e o pre­di­ca­do nu­ma fra­se, pá­ra a meio e de­pois re­gres­sa pa­ra lhe co­lo­car o com­ple­men­to. Foi uma es­pé­cie de mi­la­gre pa­ra o qual não con­tri­buí na­da», ex­pli­ca. As­sim, só ti­nha duas so­lu­ções: «Ou ia a Fá­ti­ma de joe­lhos ou agra­de­cia aos mé­di­cos.» Ca­tó­li­co pra­ti­can­te até aos 15 anos — «a mi­nha mãe era uma ca­tó­li­ca fer­vo­ro­sa e, por is­so, fui cria­do nu­ma igre­ja um pou­co de cam­pa­ná­rio: aliás, de on­de sai­ram mui­tos agen­tes da Pide...» —, ateu des­de en­tão, Car­do­so Pi­res es­co­lheu a se­gun­da via. E fi­cou­–lhe um pro­fun­do des­lum­bra­men­to pe­la Ciên­cia e por mé­di­cos que, co­mo João Lo­bo An­tu­nes, «são gran­des na sua pro­fis­são, es­tão li­ga­dos à hu­ma­ni­da­de e ao co­ra­ção e, ao mes­mo tem­po, têm um hu­mor cria­ti­vo.»
Nun­ca fez ba­lan­ços de vi­da — «tam­bém não me con­vi­nha fa­zê­–los...» — e jul­ga a mor­te como fazia an­tes: «Não há imor­ta­li­da­de. Mor­re­mos e mor­re tu­do.» No en­tan­to, não dei­xa de lhe con­fes­sar o me­do, se­gu­ro ape­nas pe­la con­fian­ça na Ciên­cia. Fi­ca­ram­–lhe per­gun­tas sol­tas — co­mo «um ho­mem sem me­mó­ria po­de so­nhar?» —, um pro­fun­do in­te­res­se pe­la eu­ta­ná­sia — que de­fen­de acer­ri­ma­men­te —, e a ple­na con­vic­ção de que «a mor­te é um dos maio­res ne­gó­cios do mun­do». Pa­ra a sua, pe­de dig­ni­da­de, «sem do­res nem hu­mi­lha­ções». En­tre­tan­to, aos 71 anos, exer­ci­ta os seus maio­res pra­ze­res: «Des­co­brir que to­dos os dias os per­de­mos mas que es­ta­mos já a des­co­brir ou­tros.»

* Voltar à palavra *

Tão inesperadamente como a perdeu, José Cardoso Pires recuperou a linguagem. Alexan­dre Cas­tro Cal­das, pro­fes­sor ca­te­drá­ti­co de Neu­ro­lo­gia da Fa­cul­da­de de Medicina de Lis­boa, dirige o Centro de Estudos Egas Moniz e acompanhou o seu caso.

«Des­de o iní­cio do sé­cu­lo XIX que a ciên­cia se tem preo­cu­pa­do com as ba­ses bio­ló­gi­cas que sus­ten­tam a ca­pa­ci­da­de de uti­li­zar a lin­gua­gem. Os mo­de­los ge­ra­dos são pro­gres­si­va­men­te mais com­ple­xos e acei­ta­–se ho­je que exis­tem re­giões do cé­re­bro par­ti­cu­lar­men­te en­vol­vi­das nes­sa ac­ti­vi­da­de. Is­so sig­ni­fi­ca que quan­do se fa­zem es­tu­dos em in­di­ví­duos nor­mais com as no­vas téc­ni­cas de ac­ti­va­ção ce­re­bral al­gu­mas re­giões do he­mis­fé­rio ce­re­bral es­quer­do e ra­ras do di­rei­to evi­den­ciam­–se du­ran­te a exe­cu­ção de ta­re­fas ver­bais. Da mes­ma for­ma, é já conhecido que uma le­são ce­re­bral que des­trua es­sas re­giões pro­vo­ca tam­bém al­te­ra­ções de lin­gua­gem.
Is­to não quer di­zer que a fun­ção lin­gua­gem se en­con­tra nes­tes lu­ga­res nem que se con­si­de­ra uni­di­men­sio­nal. A aqui­si­ção da lin­gua­gem oral e pos­te­rior­men­te a apren­di­za­gem da lin­gua­gem es­cri­ta in­tro­duz no sis­te­ma ner­vo­so em de­sen­vol­vi­men­to, es­tra­té­gias or­ga­ni­za­ti­vas es­pe­cí­fi­cas. Quan­to às di­fe­ren­tes di­men­sões da lin­gua­gem é pos­sí­vel de­com­por o pro­ces­so em ope­ra­ções múl­ti­plas pa­ra as quais se iden­ti­fi­ca a par­ti­ci­pa­ção de ope­ra­do­res ce­re­brais pró­prios.
Quan­do uma le­são des­trói es­te ar­ran­jo de neu­ró­nios a fun­ção per­tur­ba­–se po­den­do es­tar com­pro­me­ti­das as ca­pa­ci­da­des de pro­du­zir dis­cur­so, de com­preen­der, de re­pe­tir, de es­cre­ver e ou­tras, de for­ma iso­la­da em di­fe­ren­tes com­bi­na­ções, sen­do ain­da pos­sí­vel fa­zer uma aná­li­se de com­po­nen­tes de ca­da uma des­tas fun­ções. Con­for­me a na­tu­re­za, a lo­ca­li­za­ção e a di­men­são da le­são que afec­tou o cé­re­bro a dis­fun­ção se­rá maior ou me­nor e mais ou me­nos du­ra­dou­ra.
Nos ca­sos mais gra­ves, por­que a le­são é ex­ten­sa e fo­ram des­truí­das re­giões fun­da­men­tais pa­ra o pro­ces­so da in­for­ma­ção ver­bal, os doen­tes fi­cam pri­va­dos de co­mu­ni­ca­ção atra­vés da lin­gua­gem pa­ra o res­to da vi­da. Nes­tes ca­sos ad­qui­rem for­mas al­ter­na­ti­vas de co­mu­ni­ca­ção que a fa­mí­lia e ami­gos mui­tas ve­zes apren­dem a des­codi­fi­car e ren­ta­bi­li­zar até à má­xi­ma efi­cá­cia.
Fe­liz­men­te nem sem­pre as­sim é, e re­gis­ta­–se uma re­cu­pe­ra­ção das fun­ções per­di­das, sem­pre que pos­sí­vel com o apoio de te­ra­peu­tas da fa­la. Es­ta re­cu­pe­ra­ção as­sen­ta em va­riá­veis, al­gu­mas co­nhe­ci­das ou­tras não, que têm a ver com o rear­ran­jo fun­cio­nal das re­des neu­ro­nais.»


VISÃO/ Maio de 1997
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Imre Kertész - Um Livro Por Dia





















Eu é outro

Dizem-nos que os pássaros não cantam no que foi o campo de concentração de Auschwitz. Mas a verdade - e, sim, cantam - só pode ser confirmada in loco, no mais veemente museu-testemunho da barbárie humana. Em Um Outro: Crónica de Uma Metamorfose (1997), diário ficcional do judeu húngaro Imre Kertész entre 1991 e 1995, o escritor, Prémio Nobel da Literatura em 2002, alerta: «Já notaram que, neste século (o XX), tudo se tornou mais verdadeiro, e ele mesmo mais verdadeiro? O soldado tornou-se um assassino profissional; a política, delinquência; o capital, fábrica para destruir os homens, equipada com fornos crematórios; a lei, regra de um jogo de patetas; a liberdade universal, prisão dos povos; o anti-semitismo, Auschwitz; o sentimento nacional, genocídio.» Para quem, como Kertész, viveu a experiência-limite de um campo de concentração, impôs-se a «violência de um imperativo imediato de fazer os 'outros' participarem» (Primo Levi). Nessa luta por testemunhar, tornou-se evidente a ineficácia da linguagem para dizer a 'verdade', já que o relato bruto da realidade pode provocar um efeito de ficção. Desde o primeiro romance, Sem Destino (terminado em 1965, publicado numa edição limitada dez anos depois), Kertész rendeu-se à criação literária como metáfora de 'quase-verdade'.
Kértesz recusa os seus livros como autobiográficos. No entanto, é o seu fantasma real que habita todos os enredos e personagens, sobretudo o possível alter ego, György Köves. O essencial da 'verdade ficcionada' está todo na trilogia Sem Destino, A Recusa (1988) e Kaddish Para uma Criança Que Não Vai Nascer (1990), editada pela Presença. Os dados biográficos dizem-nos que, em 1944, com 15 anos, Kertész foi deportado para Auschwitz, e, dali, para Buchenwald. Após a libertação, regressou à Hungria, trabalhou como jornalista e serviu no exército, até 1953, quando optou em exclusivo pela escrita. Durante o Regime Comunista, sobreviveu num apartamento de uma assoalhada em Budapeste, graças à venda de traduções e peças de teatro, criando a sua obra em segredo e sem audiência. Um Outro: Crónica de Uma Metamorfose é mais um contributo do seu excepcional questionamento sobre a condição humana e a Europa. Um texto na primeira pessoa, escrito depois dos 70 anos, por alguém que ainda 'é' apenas porque conseguiu tornar-se «um outro».

Um Outro: Crónica de Uma Metamorfose, Imre Kertész, Editorial Presença, 102 págs.


SOL/ 19-06-2009
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Michel Houellebecq - Goncourt 2010


O vírus Houellebecq

Ao quinto romance, La Carte et le Territoire (sem editor português), Michel Houellebecq ganhou o Goncourt 2010. Por fim, a selectíssima república das letras francesa rendeu-se ao mais incómodo autor francês contemporâneo (sete votos contra dois). Talvez porque, logo em 1998, aquando do segundo romance (Partículas Elementares), a crítica e os agentes internacionais aprenderam a soletrar o seu apelido. Houellebecq (lê-se 'uélebéq') foi o primeiro escritor francês em muitas décadas a atingir reacção mundial. Os dois romances seguintes (Plataforma, 2001, A Possibilidade de uma Ilha, 2005 - cujo passe de editora o tornou um homem rico) alargaram o impacto, mas, tal como Partículas, não passaram da nomeação para o Goncourt. Entretanto, ficaram famosas algumas convicções houellebecquianas: «o Islão é a religião mais idiota do mundo», «o materialismo é incompatível com o amor» ou «sou 100% a favor da prostituição». Hoje exilado no parque natural espanhol de Almería (viveu na costa irlandesa, entre 2000 e 2002), Houellebecq,  52 anos, já comentou a atribuição: «É uma sensação esquisita, mas estou muito contente. As pessoas que lêem pouco, mas compram o último Goncourt, vão poder ler-me. Espero não as desapontar.»
Nascido na ilha francesa de Reunião, Michel Houellebecq (pseudónimo de Michel Thomas), pouco amado pelos pais (um guia de montanha e uma anestesista), foi criado em França pela avó paterna. Estudou agronomia e, após anos de desemprego, o primeiro casamento-divórcio (do qual nasceu o único filho) e alguns internamentos psiquiátricos, tornou-se programador informático e funcionário da Assembleia Nacional Francesa. Extensão do Domínio da Luta, o primeiro romance (1994) contém elementos autobiográficos, descreve a frustração afectiva e sexual de um sujeito «80% normal» e motivou a criação de uma revista (Perpendiculaire), dedicada ao «depressionismo». Quando surgiu Partículas Elementares, o romance-boom, Houellebecq já tinha um programa definido: «Sou um realista que exagera um bocadinho» (Paris Review), um «chato» que glorifica a ciência, anula a religião e o casamento e insiste na imutabilidade do carácter moral de uma pessoa.
La Carte et le Territoire é referido como a sua obra menos provocatória. Jed Martim, artista famoso pela manipulação de mapas da Michelin, contacta um certo Houellebecq para lhe servir de modelo e prefaciar a exposição de arranque. O romance inclui, a meio, uma trama policial e termina com o atroz assassinato de Houellebecq. Nada a ver com os temas genéricos de Partículas (obsessão e frustração sexuais e manipulação genética) Plataforma (turismo sexual) ou A Possibilidade de uma Ilha (seitas e clonagem)? Tudo a ver.
Houellebecq insiste na evidente contradição entre a vida moderna e uma vida afectiva satisfatória. É um mestre a veicular ideias reaccionárias de direita sob a capa de deduções lógicas de esquerda. Odeia o legado liberalista da revolução dos anos 60. Apelidado de «Baudelaire dos supermercados» e várias vezes acusado de plágio, adora referir marcas e objectos de consumo actuais, os advérbios, as repetições e «os insultos apologéticos que habitualmente só se fazem em privado». Responde às acusações de niilismo, cinismo, misoginia e racismo afirmando-se como ateísta político e profeta da actual solidão humana. Houellebecq diz-se um mero observador, mas é um agitador. O Goncourt acaba de o tutelar.

SOL/ 12-11-2010
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Luis Fernando Verissimo - Um Livro Por Dia


A prosa de Luis Fernando Verissimo regressa com o lançamento simultâneo de Os Espiões em Portugal e no Brasil. Entre mais de sessenta títulos publicados e cinco milhões de exemplares vendidos, esta é a sexta narrativa longa do escritor gaúcho, a primeira escrita por ímpeto próprio e não por encomenda. Como é hábito, a intriga apresenta-se despretensiosa, mas culta, divertida e delirante.
O funcionário de uma pequena editora, boémio de meia idade e «frustrado em letras», recebe, em várias remessas, o intrigante original de uma candidata a escritora de Frondosa, uma cidade do interior. Ariadne assina os manuscritos com uma florzinha em cima do 'i', mas propõe-se confessar uma história de amor secreto, crime e vingança, e suicidar-se no fim. Fascinado com a alegoria ao mito grego (Ariadne é abandonada por Teseu, após o ter salvo do labirinto de Dédalo; Dionísio resgata-a para o amor eterno e, após a morte, ela transforma-se numa constelação de estrelas) e apaixonado pelo estilo trémulo e ingénuo da autora de 25 anos, o funcionário decide salvá-la. É assim que monta a «Operação Teseu», a caça a informações na qual envolve os seus amigos do bar do Espanhol: um vendedor de adubos, um poeta, um filósofo (o Professor Fortuna, pródigo em hilariantes considerações sobre literatura) e um astrólogo frustes, todos «mortos-vivos barulhentos mas inocentes», transformados em «espiões».
Os Espiões é um gozo ao thriller de espionagem e aos meios editoriais e mostra que, aos 73 anos, Verissimo conserva o humor aguçado e uma ágil forma estilística. O enredo de mistério e conspirações anedóticas funde-se com o jogo de metaficção e auto-ironia (a narração é feita na primeira pessoa, a do editor, que conduz o fio da história). Leitura prazeirosa, Os Espiões devora-se num ápice. Tem suspense, crime e plágio, caricatura e crónica de costumes, futebol e acusações de suborno. Acaba mal, mas até nisso tem piada.

Os Espiões, Luis Fernando Verissimo, Dom Quixote, 171 págs.

LER/ Janeiro 2009
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domingo, 21 de novembro de 2010

Margaret Atwood 2 - Um Livro Por Dia


Sonho, logo existo

O mais provável é que cada um de nós, a dado passo, sonhe com a sua própria morte ou efabule a assistência para o seu funeral. E talvez exista mesmo um ligação qualquer entre este tipo de sonho e um desejo profundo de término da encenação que todos fazemos de nós mesmos em vida. «Senhora Oráculo», de 1976, terceiro romance de Margaret Atwood, oferece uma muito interessante reflexão sobre o tema, complementada pelo estilo ágil, riquíssimo, desta talentosa ficcionista e poetisa canadiana (n. 1939). Através da protagonista Joan Foster, Atwood explora as noções de auto-alienação e dissimulação, temas-chave nas suas obras.
Joan passou a vida a esconder dos outros algumas das facetas mais importantes da sua vida: o passado de criança obesa, a violenta relação com a mãe, a autoria de romances gótico-românticos (sob o pseudónimo de Louisa K Delacourt) ou a relação extra-conjugal com Paul, um conde polaco. No início de «Senhora Oráculo» (título do livro de poesia feminista que acaba de publicar), após simular o seu próprio suicídio, refugia-se numa casa de praia na costa italiana. Ali, assistiremos ao quotidiano da fuga de Joan à sua entidade passada, entremeado com flashbacks em que ela a revisita. Algures entre o psicologismo e o realismo, Atwood apresenta e move a sua personagem como uma marioneta de si mesma, numa viagem da memória com tanto de trágico como de cómico ou lírico. Como uma vez afirmou à BBC, interessa-lhe o facto de que «as nossas memórias são mais construídas e editadas por cada um de nós do que queremos aceitar». Cada indivíduo é uma espécie de ficcionista de si mesmo.
Logo após a estreia, em 1969, com «A Mulher Comestível», Atwood entrou para a galeria das maiores autoras daquilo a que os americanos chamam 'chik lit': uma literatura feminista pela revelação da vida psicológica secreta (das cumplicidades, manipulações, 'crueldades' e fragilidades) das mulheres na casa dos trinta e quarenta. Atwood, várias vezes nomeada para o Booker Prize (conquistado em 2000, com «O Assassino Cego»), aguarda ainda, também em Portugal, o reconhecimento merecido para a inteligência acutilante e a ímpar capacidade imagética e poética da sua prosa. «Senhora Oráculo» é uma boa porta de entrada no universo atwoodiano, ainda que urja a reedição das obras-primas «Olho de Gato» e «Crónica de uma Serva».

Senhora Oráculo, Margaret Atwood, Bertrand, 352 págs. 

SOL/ 14-08-2009
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sábado, 20 de novembro de 2010

Livro dos Mortos - Um Livro Por Dia


Da arte de morrer

Chama-se Livro Tibetano dos Mortos e é um tesouro escondido do mundo durante mais de mil anos. Um guia sobre a vida e a morte, centrado em preceitos de instrução da consciência para a transformação e a iluminação. Em 2005, a Orient Foundation patrocinou a edição britânica da primeira tradução na íntegra do seu texto original. Tomando-a por base, a editora Ésquilo disponibiliza agora em português esta que é, a par de Divina Comédia de Dante, uma das mais fundamentais obras sobre a morte.
Para se perceber a máxima importância deste acontecimento na história da edição mundial, e portuguesa, é preciso relembrar uma longa história. Primeiro, numa aldeia indiana e algures entre os séculos VI e IV a.C., Siddhartha Gautama, o Buda primordial, sentou-se em meditação debaixo de uma figueira e recebeu revelações sobre o ciclo das existências e da morte. As palavras que depois difundiu oralmente, e nunca por escrito, fundaram a filosofia budista.
Nos séculos seguintes, esses ensinamentos foram compilados em tratados e escrituras canónicas na Índia, depois em outras regiões da Ásia, sustentando diversas escolas. Ao Tibete, eles chegaram sobretudo no século VIII d.C. e foram, na escola Nyingma-pa (a da Antiga Tradução), transmitidos por gerações de monges, através de uma longa linhagem de preceitos orais. Padmasambhava, o mais importante desses grandes mestres e um dos pais do esoterismo, decidiu ocultar ou enterrar muitos daqueles “tesouros-ensinamentos” sob formas telepáticas ou crípticas para que eles viessem a ser revelados apenas nos momentos exactos em que pudessem ser apreendidos na sua intenção e luz originais. No século XIV, aos 15 anos, Karma Lingpa, um yogi da linhagem directa de descobridores de tesouros, descobriu na colina de Gampodar uma das essências do cânone budista tibetano: os textos Bardo Thodol-Grande Libertação pela Escuta nos Estados Intermédios, referidos no mundo exterior ao Tibete como Livro Tibetano dos Mortos.
Dos doze capítulos da compilação original, apenas dois eram até agora conhecidos no Ocidente, na tradução de Evans Wentz, de 1927. Na época, a sua divulgação teve um impacto notável, influenciando nomeadamente as teorias de Carl Jung. Com prefácio do Dalai Lama e inclusão de mais dois capítulos adicionais, a edição integral hoje disponível constitui também a revelação da grande beleza estética e lírica de um tesouro de descrições dos estados anteriores e posteriores à morte. Nele se consumam transmissões milenares de ensinamentos por mestres budistas moribundos. Nele se instruem preceitos de transferência da consciência (Phowa), a principal prática budista tibetana. Para os não praticantes, esta é, a par do Livro Egípcio dos Mortos ou do chinês Tao Te King, uma viagem ímpar até à possibilidade de transformação da vida e da morte.

Livro Tibetano dos Mortos, Ésquilo, 576 págs.

SOL/ 02-12-2006
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Luandino Vieira - Um Livro Por Dia


Os rios de Luandino

Fixem um dos mais belos arranques de um romance em língua portuguesa: “Conheci rios. Primevos, primitivos rios, entes passados do mundo, lodosas torrentes de desumano sangue nas veias dos homens. Minha alma escorre funda como a água desses rios.” Será assim, ao longo de 140 páginas, a força de uma narração que escorre, também ela funda, através do grande rio angolano Kwanza. O romance chama-se De Rios Velhos e Guerrilheiros, é o primeiro da trilogia O Livro dos Rios e marca o regresso de Luandino Vieira, após décadas de silêncio.
Em 1992, numa entrevista ao Diário de Notícias, Luandino afirmou: “Os meus livros são o meu real (…) Escrever é reorganizar o caos.” Em recentes declarações em Luanda, o escritor explicou que a sua recusa do Prémio Camões 2006 se deveu a “questões de consciência”: “Acima de tudo sou angolano. Só tenho uma nacionalidade e uma pátria.” Nascido José Vieira da Graça no ano de 1965, em Vila Nova de Ourém, Luandino foi aos três anos para Angola com os pais. Desde muito cedo ligado ao Movimento de Libertação de Angola (MPLA), produziu oito dos seus livros na prisão, onde esteve cerca de onze anos, até 1972. Fundador da União de Escritores Angolanos, autor de Luuanda - cuja apreensão, na década de setenta, marcou a luta pela liberdade de expressão em Portugal - Luandino é um dos principais precursores da literatura angolana.
Por tudo isto, anote-se, De Rios Velhos e Guerrilheiros é um romance angolano. Um tributo à história passada e recente de uma nação, narrado por um guerrilheiro, Kene Vua (Sem-Azar), “eu, negro (…) acocorado na memória”. Um marco histórico e ainda revolucionário. Porque, no vigoroso domínio da língua, na sua reinvenção e na integração do dialecto quimbundo, Luandino cria uma voz que evoca feridas ainda por fechar. Feridas humanas e identitárias, mais do que políticas.
Kene Vua, o guerrilheiro, filho do sábio iletrado Kimôngua Paka que andou na escola com Agostinho Neto, é também Kapapa, aquele que escuta os “ecos esfarrapados” da voz do avô desalforriado Kinhoka Nzaji. Procurou a sua vida, “esse caminho de mil pambos cruzilhados que aquele branco sempre queria pôr na desordem das suas lei e ordem”. Conheceu e correu rios. Em fuga, numa ilha do Kwanza, “na guerra civil da [sua] vida” tem um sonho que corta o tempo e percorre “o caminho do homem na morte”.  Tudo o resto, neste livro, é pura poesia.

De Rios Velhos e Guerrilheiros, Luandino Vieira, Editorial Caminho, 150 págs.

SOL/09-12-2006
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Andrés Neuman - Um Livro Por Dia

No labirinto da Europa

Andrés Neuman é o novo ai-Jesus das letras latino-americanas.

Para anunciar a presença da Argentina como país-convidado desta edição da Feira do Livro de Frankfurt, a decorrer até ao dia 10, o jornal El País (edição de 25/09) fez a escolha mais acertada. A expressão Qué bárbaro! titula um diálogo imaginado pelo escritor argentino de 33 anos Andrés Neuman, entre Borges e um fictício autor norte-americano. Depois da «bolanomania», instala-se a «neumanmania». O próprio Bolaño disse de Neuman: «Tocado pelo génio. A literatura do século XXI estará nas mãos [dele] e de muito poucos dos seus irmãos de sangue.» O quarto romance do autor, O Viajante do Século, recém-editado em Portugal, valeu-lhe, em 2009, o Prémio Alfaguara de Romance e o Prémio da Crítica Espanhola. É um complexo colosso, com a densidade descritiva, linguística e reflexiva de uma obra-prima do século XIX e o alcance veloz de um romance futurista. A unir tudo, exibe uma rara expressão poética e uma erudição enciclopédica.
Neuman, filho de músicos exilados, cresceu na Argentina até aos 14 anos, quando a família se mudou para Granada. Hoje, possui nacionalidade argentina e espanhola. Como ele, O Viajante do Século tem um pé na história da Europa e outro na radical capacidade efabulatória da América Latina. Monumental e cheio de personagens ricas, o enredo acompanha a história de amor de Hans, tradutor e viajante errático («parecido com um detective»), com a progressista e impetuosa Sophie Gottlieb, comprometida com um oligarca. Está-se algures entre a Saxónia e a Prússia, na fictícia «cidade móvel» de Wanderburgo, cujas ruas mudam de lugar e prendem os visitantes. Durante um ano e plena restauração pós-napoleónica, Hans frequenta o salão literário, filosófico e político de Sophie (de onde sairá um misterioso assassino mascarado!). Juntos, propõem-se traduzir o melhor da poesia europeia (símbolo de uma idealizada união europeia), enquanto vivem uma intensa relação sexual.
Utopia romântica e realidade crua são dois pesos meticulosamente geridos na balança narrativa de Neuman. Inspirado no último Lied da Viagem de Inverno de Schubert, o escritor fez Hans acompanhar-se também de um velho mendigo, tocador de realejo. Na cidade invisível de Wanderburgo, será ele a transmitir-lhe a ronda de sonhos que permite uma viagem através dos séculos.

O Viajante do Século, Andrés Neuman, Editora Objectiva, 523 págs.

SOL/ 08-10-2010
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Manuel Hermínio Monteiro (1952-2001) - Uma memória



Poetas da edição

Militante, resistente, obstinada na defesa da poesia, a editora Assírio & Alvim comemorou 25 anos em 1997. Fica a memória de um grande editor e do seu re­la­to de re­sis­tên­cia, datado desse ano.

Co­me­çou pe­la mão de João Car­los Al­vim que, aos 20 anos, que­ria mu­dar o mun­do. En­tão re­dac­tor no Jor­nal do Co­mér­cio, de­ci­diu tro­car o ser­vi­ço da pe­na e, com aju­da fi­nan­cei­ra da mãe, abrir uma edi­to­ra que fi­zes­se uma re­sis­tên­cia in­te­lec­tual ao re­gi­me. Com ele, em­bar­ca­ram no pro­jec­to As­sí­rio Ba­ce­lar (Ve­ga), Jo­sé An­tu­nes Ri­bei­ro (Ul­mei­ro) e Má­rio Reis (Ar­co­–Íris). No dia 12 de No­vem­bro de 1972, foi fei­ta a es­cri­tu­ra e es­co­lhi­do o no­me, ao aca­so, en­tre os ape­li­dos dos só­cios. Sem olhar a meios, alheia a qual­quer ti­po de ges­tão co­mer­cial pro­vi­den­te, a As­sí­rio & Al­vim abriu, se­guin­do os ven­tos que en­tão cor­riam em Fran­ça e Es­pa­nha. «Que­ría­mos di­vul­gar no­vos tex­tos de so­cio­lo­gias em­pe­nha­das — não só aca­dé­mi­cos, mas com uma car­ga ideo­ló­gi­ca que, en­tão, fa­zia sen­ti­do —, tex­tos que com­pa­nhas­sem as mu­dan­ças que se ope­ra­vam.» A aten­ção à poe­sia e à li­te­ra­tu­ra mar­ca pre­sen­ça lo­go no iní­cio, com a edi­ção de An­to­lo­gia da Poe­sia Con­cre­ta em Por­tu­gal. En­tre cha­ma­das de aten­ção por par­te do SNI e vá­rios con­cí­lios en­tre os só­cios, a edi­to­ra en­tra ra­pi­da­men­te em pro­ces­so de rup­tu­ra fi­nan­cei­ra e, em mea­dos dos anos 70, é sal­va com a aju­da de Ho­me­ro Car­do­so e Con­cei­ção Te­les. João Car­los Al­vim é o úni­co só­cio que aguen­ta o bar­co até 1983. «A li­nha edi­to­rial che­gou a ser al­vo de ple­ná­rio. As es­co­lhas eram sem­pre as­su­mi­das co­lec­ti­va­men­te. Es­sa foi, ao mes­mo tem­po, a maior for­ça e fra­que­za da ca­sa», ex­pli­ca ho­je.
Ma­nuel Her­mí­nio Mon­tei­ro en­tra na edi­to­ra, em 1974, co­mo ven­de­dor, con­ci­lian­do es­sa ac­ti­vi­da­de com o cur­so de His­tó­ria. Fre­quen­tan­do vá­rios meios in­te­lec­tuais, ini­cia uma sé­rie de ami­za­des mar­can­tes pa­ra o fu­tu­ro da chan­ce­la — a que es­ta­be­le­ceu com Má­rio Ce­sa­riny re­sul­tou na sua co­la­bo­ra­ção em Poe­sia de An­tó­nio Ma­ria Lis­boa (1978), o livro que mar­ca uma vi­ra­gem de­ci­si­va na li­nha edi­to­rial. Re­cen­tra­da nu­ma aten­ção per­ma­nen­te à poe­sia, a ca­sa en­con­tra fi­nal­men­te um ru­mo, as­su­mi­do por Her­mí­nio a par­tir de 1983. Diz João Car­los Al­vim: «Ti­ro­–lhe o cha­péu por ter con­se­gui­do afir­mar a As­sí­rio co­mo um exem­plo úni­co de re­con­ver­são de su­ces­so.» De en­tão até ho­je, a sua his­tó­ria es­cre­ve­–se com re­la­tos de cum­pli­ci­da­des e mi­li­tân­cias, on­de par­ti­ci­pam al­guns dos no­mes mais mar­can­tes da poe­sia das úl­ti­mas duas dé­ca­das. Ho­je, es­ten­de­–se a uma li­vra­ria nos lis­boe­tas ci­ne­mas King, ou­tra, no Tea­tro Na­cio­nal Do­na Ma­ria II, e a inú­me­ros fo­cos de uma ac­ti­vi­da­de cul­tu­ral que cul­mi­na no ex­ten­so pro­gra­ma de co­me­mo­ra­ção do seu ani­ver­sá­rio. Co­mo um ca­so de su­ces­so de uma ló­gi­ca co­mer­cial apli­ca­da a um ni­cho de mer­ca­do on­de aflo­ra o es­pa­ço mar­gi­nal.
Nasceu em Novembro de 1972, como um projecto de luxo de algumas pessoas empenhadas em fazer, através dos livros, a resistência ao espírito vigente. Um ano depois, estava à beira da falência. Sobreviveu, abriu um novo espaço na edição de poesia portuguesa, cresceu graças à militância de todos aqueles que viram nela, e nos livros, um sinal de que os sonhos colectivos que fogem à lógica das massas são, afinal, possíveis. Quando comemora os seus 25 de anos de existência, a editora Assírio & Alvim celebra também uma existência expressa em alguns dos versos mais importantes das últimas décadas e uma forma singular de editar em Portugal. É disso que fala Manuel Hermínio Monteiro, 45 anos, director editorial da casa, esse rapaz da aldeia de Parada do Pinhão, Concelho de Sabrosa, que conquistou os leitores de poesia e os poetas portugueses sem nunca escrever um verso.

VI­SÃO: O que faz a di­fe­ren­ça en­tre a As­sí­rio & Al­vim e as ou­tras edi­to­ras por­tu­gue­sas?
MA­NUEL HER­MÍ­NIO MON­TEI­RO: A se­guir ao 25 de Abril, qua­se to­das se vol­ta­ram pa­ra o li­vro po­lí­ti­co ou de ciên­cias so­ciais. De­pois, fo­ram de­fi­nin­do es­pa­ços pró­prios. O maior mé­ri­to da As­sí­rio & Al­vim foi apos­tar num ele­va­do grau de exi­gên­cia na tra­du­ção e no as­pec­to grá­fi­co dos li­vros [ver caixa] e pri­vi­le­giar a poe­sia co­mo ne­nhu­ma ou­tra edi­to­ra. Va­lo­ri­zá­mos a poe­sia por­tu­gue­sa des­te sé­cu­lo, no­mea­da­men­te, tra­zen­do à to­na al­guns poe­tas me­nos re­co­nhe­ci­dos. Fi­ze­mo­–lo num mo­men­to [os anos 80] em que se co­me­çou a iden­ti­fi­car a li­te­ra­tu­ra por­tu­gue­sa ape­nas pe­la fic­ção, quan­do a pró­pria As­so­cia­ção Por­tu­gue­sa de Es­cri­to­res só ti­nha um pré­mio de fic­ção, quan­do a poe­sia era re­cu­sa­da até pe­los li­vrei­ros.

V: Por­que o pú­bli­co não res­pon­dia?
M.H.M.: O 25 de Abril, ape­sar de ter tra­zi­do a poe­sia pa­ra a rua — co­mo diz o pos­ter de Viei­ra da Sil­va —, ao mes­mo tem­po, es­con­deu-a. A ne­ces­si­da­de de prag­ma­tis­mo e de um dis­cur­so so­cial fi­ze­ram com que a poe­sia não militante se tor­nas­se qua­se um dis­cur­so de ocio­sos. A se­guir, as coi­sas mu­da­ram. E nós ti­ve­mos uma gran­de co­ta par­te nis­so, não só ao ní­vel da edi­ção, mas tam­bém com iniciativas co­mo os Anuá­rios de Poe­sia de Au­to­res Não Pu­bli­ca­dos [de 1984 a 1987], a re­vis­ta Pha­la [edi­ta­da des­de 1986], ou a co­la­bo­ra­ção com a Rá­dio Co­mer­cial, que, du­ran­te o mês de lan­ça­men­to do nú­me­ro es­pe­cial A Pha­la/Um Sé­cu­lo de Poe­sia [Abril de 1989], pas­sou em to­dos os no­ti­ciá­rios um poe­ma declamado de um au­tor por­tu­guês...

V: Des­co­bri­ram um pú­bli­co que não se sus­pei­ta­va que pu­des­se suportar uma edi­to­ra de poe­sia...
M.H.M.: Is­so de­ve­–se tam­bém a uma cer­ta ma­nei­ra de ser. Eu che­go à As­sí­rio com um gran­de co­nhe­ci­men­to do país e dos seus pe­que­nos ni­chos cul­tu­rais. Vinha da pro­vín­cia, ávi­do de co­nhe­cer e ver tu­do. Cir­cu­la­va bas­tan­te, o que me da­va pa­ra per­ce­ber o es­pí­ri­to do tem­po. Is­so aca­bou por se re­flec­tir na edi­to­ra, sem­pre muito des­cen­tra­li­za­da, vol­ta­da pa­ra o ex­te­rior, com pro­lon­ga­men­tos e ini­cia­ti­vas um pou­co por to­do o la­do. Ao lon­go dos anos, desenvolvemos um tra­ba­lho cul­tu­ral que não se res­trin­ge a produzir um li­vro e pô­–lo na rua.

V: Com que ti­po de gi­nás­ti­ca or­ça­men­tal?
M.H.M.: Ne­nhu­ma. Nun­ca ti­ve­mos qualquer in­jec­ção de di­nhei­ro. A As­sí­rio fez­–se gra­ças ao ca­pi­tal hu­ma­no de uma equi­pa com uma enor­me dis­po­ni­bi­li­da­de, fei­ta com gen­te es­co­lhi­da ape­nas por in­tui­ção: pes­soas que se ha­bi­tua­ram a ver aqui, mais do que um em­pre­go, um meio pa­ra fa­ze­rem um tra­ba­lho de in­ter­ven­ção cul­tu­ral de que gos­ta­vam.

V: Uma mi­li­tân­cia cul­tu­ral tão distante da lógica comercial que rege a maior parte das outras editoras...
M.H.M.: Acho que é is­so mesmo que nos dis­tin­gue delas. As me­lho­res opi­niões so­bre nós vêm de co­le­gas es­tran­gei­ros que ad­mi­ram, sobretudo, a nos­sa ca­pa­ci­da­de de re­sis­tên­cia. E que di­zem que, nos seus paí­ses, uma edi­to­ra com uma li­nha edi­to­rial exi­gen­te e in­ci­din­do na poe­sia te­ria sé­rias di­fi­cul­da­des de so­bre­vi­vên­cia. Nós con­se­gui­mos man­ter uma cer­ta mar­gi­na­li­da­de — no sen­ti­do des­sa exi­gên­cia e pre­cio­sis­mo que são apa­ná­gios das pe­que­nís­si­mas e mar­gi­nais edi­to­ras — e, ao mesmo tempo, uma pre­sen­ça e res­pei­ta­bi­li­da­de que su­pe­ram o es­ta­tu­to mar­gi­nal. Es­te equi­lí­brio é que me parece ra­ro.

V: Uma mi­li­tân­cia em vias de ex­tin­ção?
M.H.M.: Se, an­tes do 25 de Abril, ha­via uma re­sis­tên­cia que era mais po­lí­ti­ca, ho­je em dia, ela de­ve ser mais cul­tu­ral pe­ran­te a me­dia­nia, a mas­si­fi­ca­ção, o des­lei­xo cul­tu­ral que se vai im­pon­do na so­cie­da­de por­tu­gue­sa. E os re­sis­ten­tes, in­fe­liz­men­te, sem­pre fo­ram pou­cos. A nossa é uma militância pela poesia, pelas coisas de que gostamos, pelos autores que publicamos. E, obviamente, o papel do editor não é só fazer o livro: tem de o divulgar. A tarefa do editor desde o momento em que acredita num escritor e o põe na rua é defender e fazer o mais possível para o levar ao conhecimento das pessoas.

V: Mes­mo quando fazem certas ce­dên­cias a uma ló­gi­ca mais co­mer­cial…
M.H.M.: Não fa­ze­mos ce­dên­cias. Em Por­tu­gal, aten­den­do ao nú­me­ro de lei­to­res e à po­pu­la­ção do país, era qua­se im­pos­sí­vel exis­tir uma edi­to­ra, por exem­plo, co­mo a ma­dri­le­na Hi­pé­rion, que só edi­ta poe­sia. Te­mos de atin­gir di­ver­sos le­ques de pú­bli­co.

V: O que le­va a pro­pos­tas tão di­ver­sas co­mo, por exem­plo, Da­qui Nin­guém Sai Vi­vo [bio­gra­fia de Jim Mor­ri­son, um dos seus maio­res êxi­tos edi­to­riais] ou Jar­dim de Poe­sias Eró­ti­cas do «Si­glo de Oro»?
M.H.M.: Des­de o iní­cio, a As­sí­rio tem o le­ma de que os li­vros se fa­zem pa­ra ser dis­cu­ti­dos, não são uma pas­ti­lha, um pro­gra­ma que se im­pin­ge. Po­de­mos tra­tar qual­quer pro­pos­ta, des­de que o fa­ça­mos com qua­li­da­de. Não im­po­mos um ti­po de gos­to, ape­nas va­mos trans­mi­tin­do os nos­sos gos­tos vá­rios.

V: O pro­gra­ma de poe­sia re­flec­te es­co­lhas mui­to es­pe­cí­fi­cas...
M.H.M.: Mas mui­to eclé­ti­cas tam­bém. Edi­tá­mos poe­sias tão dis­tin­tas co­mo a de Tei­xei­ra de Pas­coaes e a de Cummin­gs, a de Ro­bert Lowell e a de Gas­tão Cruz, a de Jo­sé Agos­ti­nho Bap­tis­ta e a de Se­bas­tião Al­ba. No en­tan­to, não te­nho a mí­ni­ma dú­vi­da de que são poe­sias de gran­de qua­li­da­de. Es­ta di­ver­si­da­de per­mi­te­–nos dar a ideia da plu­ra­li­da­de de di­ze­res. Po­de­mos mes­mo fa­zer uma pe­que­na his­tó­ria da poe­sia por­tu­gue­sa des­te sé­cu­lo: com Teixeira de Pas­coaes, Má­rio de Sá­–Car­nei­ro, Fer­nan­do Pes­soa, An­tó­nio Pa­trí­cio, Ed­mun­do Betten­court , de­pois, nos anos 40, com Ruy Ci­natti, a poe­sia dos anos 50, Her­ber­to Hel­der, a poe­sia de 61 — de Ca­si­mi­ro de Bri­to, Fia­ma Has­se Pais Bran­dão, Gas­tão Cruz e Lui­za Ne­to Jor­ge — e, de­pois, to­da aque­la poe­sia que vem por aí fo­ra: João Mi­guel Fer­nan­des Jor­ge, Jo­sé Agos­ti­nho Bap­tis­ta, Joa­quim Ma­nuel Ma­ga­lhães, An­tó­nio Fran­co Ale­xan­dre, Al Ber­to, e ca­sos iso­la­dos co­mo o An­tó­nio Gan­cho. Qua­se to­da a poe­sia que se foi pro­du­zin­do nes­tes 25 anos aca­bou por pas­sar por aqui, es­pon­ta­nea­men­te.

V: Es­pon­ta­nea­men­te, os poe­tas fi­ca­ram tam­bém a de­ver­–vos mui­to.
M.H.M.: Nós é que so­mos sem­pre de­ve­do­res a es­sa es­pé­cie de enor­me via lác­tea que eles dei­xam e que é a poe­sia. Fui de­ve­dor deles mal os co­me­cei a ler. De­pois de os co­nhe­cer, fi­quei em dí­vi­da pe­las coi­sas ín­ti­mas, im­por­tan­tís­si­mas pa­ra a mi­nha vi­da, que me pro­por­cio­na­ram. Fui cres­cen­do aqui no in­te­rior da ca­sa, apren­den­do com es­ta gen­te to­da um mo­de­lo de pen­sar, um mo­do anár­qui­co em ter­mos de co­nhe­ci­men­to, em que se mis­tu­ra mui­to a in­tui­ção com a sen­si­bi­li­da­de, o ver poé­ti­co das coi­sas. Os au­to­res da As­sí­rio é que a pres­ti­giaram, lhe deram esta forte presença.

V: Con­se­guir a ex­clu­si­vi­da­de de di­rei­tos da obra de Fer­nan­do Pes­soa é uma es­pé­cie de me­da­lha de ou­ro...
M.H.M.: É ex­trao­rdi­na­ria­men­te im­por­tan­te. Por um la­do, pe­la im­por­tân­cia da sua obra e pe­lo fac­to de a po­der­mos pu­bli­car cor­rec­ta­men­te. Por ou­tro, por­que Pes­soa, so­bre­tu­do em ter­mos in­ter­na­cio­nais, po­de abrir­–nos por­tas pa­ra a pas­sa­gem de ou­tros poe­tas por­tu­gue­ses de ex­ce­len­te qua­li­da­de, que, por uma sé­rie de cir­cuns­tân­cias, não es­tão su­fi­cien­te­men­te di­vul­ga­dos no es­tran­gei­ros: Her­ber­to Hel­der, Ce­sa­riny, An­tó­nio Ma­ria Lis­boa...

V: A As­sí­rio tem ca­pa­ci­da­de pa­ra su­por­tar as ne­ces­sá­rias edi­ções crí­ti­cas de Pes­soa?
M.H.M.: Não va­mos fa­zer edi­ções crí­ti­cas com o apa­ra­to de no­tas das que têm saí­do. É evi­den­te que, em ter­mos de in­ves­ti­ga­ção, es­ta­mos a con­tar com o apoio do Es­ta­do. É pre­ci­so fa­zer­–se um tra­ba­lho de sa­pa de in­ves­ti­ga­ção, uma no­va or­ga­ni­za­ção dos do­cu­men­tos, a lei­tu­ra dos ma­nus­cri­tos... Tu­do is­to é um pro­ble­ma de in­ves­ti­ga­ção e não de edi­ção. São ques­tões cul­tu­rais que ul­tra­pas­sam a edi­to­ra.

V: Qual é o pro­gra­ma de edi­ção pre­vis­to?
M.H.M.: Já temos uma equi­pa a tra­ba­lhar [com­pos­ta por pes­soa­nos co­mo Fer­nan­do Ca­bral Mar­tins, Luí­sa Me­dei­ros, Ma­nue­la Par­rei­ra da Sil­va ou Te­re­sa Ri­ta Lo­pes] e um pro­gra­ma de edi­ção de­li­nea­do. Pa­ra­le­la­men­te, que­re­mos criar uma re­vis­ta que di­vul­gue to­dos os tex­tos de in­ves­ti­ga­ção, por­tu­gue­ses e es­tran­gei­ros, so­bre Fer­nan­do Pes­soa. So­bre­tu­do, va­mos ter uma gran­de preo­cu­pa­ção de ri­gor. Tra­ta­–se de uma ree­di­ção com­ple­xa porque é pre­ci­so con­fe­rir os tex­tos no ori­gi­nal. Te­nho to­das as edi­ções por­tu­gue­sas de Pes­soa e cons­ta­to que, em al­gu­mas de­las, os or­ga­ni­za­do­res al­te­ra­ram li­nhas in­tei­ras de tex­to, rees­cre­ven­do-o a seu bel pra­zer. A nos­sa maior preo­cu­pa­ção é a de edi­tar obras que se­jam de re­fe­rên­cia, sem er­ros, ri­go­ro­sas. Era mui­to fá­cil se assumíssemos Pessoa apenas numa pers­pec­ti­va co­mer­cial: pe­gá­va­mos nas edi­ções da Áti­ca, e era só im­pri­mir pa­pel e ga­nhar di­nhei­ro. Queremos fazer um trabalho de fundo, de referência.

V: O que implica um crescimento da editora que pode comprometer o seu espírito familiar e militante...
M.H.M: Se isso acontecesse, deixava de ser editor.

* De­sign & le­tras *

A ima­gem grá­fi­ca foi sem­pre um dos maio­res trun­fos da As­sí­rio & Al­vim

Li­vros lim­pos, só­brios, on­de as pá­gi­nas res­pi­ram ao sa­bor das le­tras. São as­sim os vo­lu­mes da As­sí­rio & Al­vim, cu­jo de­sign grá­fi­co é, des­de 1976, con­ce­bi­do por Ma­nuel Ro­sa, 43 anos. A aven­tu­ra co­me­çou com a ami­za­de por Her­mí­nio Mon­tei­ro e le­vou es­te es­cul­tor a uma área on­de ain­da ho­je se mo­ve co­mo um cu­rio­so vi­si­tan­te. «Por­que não sin­to que te­nha a mes­ma preo­cu­pa­ção dos de­sig­ners grá­fi­cos com os as­pec­tos mais téc­ni­cos. Pa­ra mim, aci­ma de tu­do, es­tá o li­vro en­quan­to ob­jec­to que de­ve in­te­res­sar aos lei­to­res, ter uma lei­tu­ra agra­dá­vel e res­pei­tar o es­pí­ri­to dos au­to­res.» O mais des­po­ja­dos pos­sí­vel de ar­ti­fí­cios, os li­vros da As­sí­rio fo­gem a es­té­ti­cas su­jei­tas a mo­das, pro­cu­ram ade­quar o ti­po de lin­gua­gem grá­fi­ca ao pro­gra­ma edi­to­rial em cau­sa. «Pro­cu­ra­mos que o gra­fis­mo es­te­ja ao ser­vi­ço do tex­to e que não se­ja rí­gi­do ao pon­to de o es­par­ti­lhar.» No iní­cio, não hou­ve uma es­tra­té­gia de­ter­mi­na­da, ape­nas um ca­mi­nho que «acon­te­ceu na­tu­ral­men­te» e que re­sul­tou nu­mas das mais for­tes ima­gens grá­fi­cas do mer­ca­do edi­to­rial por­tu­guês. 

VISÃO Nº245/Novembro de 1997
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Relatório Brodeck - Um Livro Por Dia


A aldeia da culpa

«Imaginem a corda tensa de um arco, a cada hora que passa cada vez mais tensa.» Imaginem assim os três meses entre a chegada do 'Anderer' (o 'Outro', o 'Estrangeiro', o «homem vindo de nenhures») e o seu horrível assassinato, no qual participaram todos os homens da aldeia, excepto Brodeck. A ele, forçá-lo-iam à redacção de um Relatório dos acontecimentos, para que as pessoas os «compreendam e perdoem». O que leremos será antes o relato à margem que o narrador-protagonista decidiu escrever, o verdadeiro O Relatório Brodeck, um romance notável e perturbador assinado em 2007 pelo francês Philippe Claudel (47 anos, Prémio Goncourt 2003 com Les Petites Mécaniques, Prémio Renaudot 2005 com Almas Cinzentas).
A acção decorre pouco tempo após a Segunda Guerra e a ocupação nazi. A aldeia, cercada por montanhas, situa-se algures na fronteira com a Alemanha. Trinta anos antes, Brodeck, orfão ainda criança, instalara-se ali com a velha Fédorine, que o adoptara enquanto fugia «do ventre podre da Europa». Agora, é ali que ele regressa, como sobrevivente de um campo de concentração. Não se limitará à descrição do que sucedeu a 'Anderer', o excêntrico artista sem nome, capaz de retratar, como num espelho, a verdadeira alma dos homens e das paisagens. Brodeck, o suposto único inocente, ele, que aprendeu no campo que 'um homem é nada', vai contar a sua história e confessar-se.
O Relatório Brodeck contraria a ideia de que tudo já foi escrito e reescrito sobre o Holocausto e a Europa do século XX como sinónimos de horror, trauma e culpa. Numa cativante arquitectura romanesca, gerindo o suspense de um policial, a eficácia da descrição mais nua e a emoção do registo confessional, Philippe Claudel não hesita perante questões tão complexas como o síndrome do sobrevivente, a banalidade do mal, a psicologia de grupo ou a xenofobia.
O resultado é um incómodo romance de ideias, desses que obrigam mesmo a pensar. Quer se tome como conto de fadas ou de terror, obriga-nos a uma reflexão sobre a verdade do registo humano do amor, da guerra, da morte e, sobretudo, do medo e da culpa. Brodeck pergunta: «Será a História uma verdade capital feita de milhões de mentiras individuais cosidas uma às outras?» Responde-nos com um relatório terrível sobre a solidão de cada homem no confronto consigo mesmo.

O Relatório de Brodeck, Philippe Claudel, Asa, 256 págs. 


SOL/ 25-09-2009
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

John Updike 2 - Um Livro Por Dia


Terror, lá dentro

O caso é ainda mais flagrante do que o de Philip Roth, outro gigante da literatura contemporânea. Aos 74 anos, John Updike é um dos mais activos e influentes intelectuais norte-americanos, cuja bibliografia inclui 22 romances e dezenas de livros de ensaio, poesia, crítica literária e literatura infantil. E, contudo, entre títulos quase esgotados, de fraquíssima circulação ou recém-editados pela editora Civilização, apenas oito destas obras existem no mercado português. Num golpe de sorte para o leitor, chega às livrarias o mais recente romance, O Terrorista, publicado este ano nos Estados Unidos.
No volume de ensaios More Matter: Essays and Criticism (1999), Updike acusou a maioria dos ficcionistas contemporâneos de não se darem ao trabalho de “aspirar à esperança no paraíso, ao medo do inferno, ou de sequer pensarem noutra vida para além desta de carne e osso e eventual esmagador desapontamento”. Desde os anos 60 que a sua obra comprova um fascínio particular pelas questões espirituais, mesmo quando trata da tragédia da classe média suburbana americana, como na tetralogia de Harry “Coelho” Angstrom, das relações afectivas e conjugais, como em Casais (de 1968), ou dos dilemas intelectuais do seu alter ego, o escritor judeu Henry Bech. Também por isso Updike se tornou famoso com As Bruxas de Eastwick, de 1984.
Em O Terrorista, o escritor ataca os dilemas dos choques religiosos. Com a sua habitual destreza em dominar de uma forma realista e num estilo fluido e certeiro os temas mais diversos e os centrar nas relações humanas, apresenta agora o mundo de Ahmad Muloy, um jovem adulto americano intoxicado em islamismo. Em torno dele, coloca vários outros filhos e netos de imigrantes, e, sobre todos, a sua velha máxima irónica de que “a América é uma ampla conspiração para nos fazer felizes”.
No pós-11 de Setembro, em New Prospect, Nova Jérsia, não foram só as oportunidades do eldorado industrial da imigração aquilo que implodiu. No liceu, o inteligente Ahmad observa “um mundo que troça da religião”. Através dele, Updike fala do esvaziamento do nó interior de cada um como reverso do capitalismo. A América “solidamente pavimentada de gordura e alcatrão” fomenta o terror dentro de si mesma. Sem moralismos, a história de Ahmad, do fundamentalismo ao terrorismo, é um esclarecido e esclarecedor retrato sociológico.

O TerroristaJohn Updike, Civilização Editora, 283 págs.


SOL/ 16-12-2008
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

domingo, 14 de novembro de 2010

Henning Mankell - Um Livro Por Dia


O peso da culpa

“Não nos conhecemos uns aos outros”, diz Kurt Wallander, o comissário de polícia criado pelo sueco Henning Mankell. Se toda a literatura contraria a inevitabilidade desta afirmação, esse impulso é notório no caso do romance policial nórdico. Mais do que a construção de um enredo à volta de cenários de crime, o que move autores como Mankell (que vive entre a Suécia e Maputo, onde dirige o Teatro Avenida) é a indagação de uma verdade realista: por que se mata? por que se morre? “Um Passo Atrás”, sétimo policial do autor, prossegue a procura de respostas para a banalidade do mal.
Esclareça-se já que neste romance existe um assassino em série e que também isso o distingue do romance policial mediterrânico, representado por Manuel Vázquez Montalbán ou Andrea Camilleri e ligado à descrição de problemas sociais, mas também à ironia, à fé na humanidade e aos prazeres da vida. Tal como defende o autor norueguês K. O. Dahl: “Os assassinos em série aparecem no mundo protestante e não no católico. Talvez os nórdicos tenham a ira mais contida do que os mediterrânicos. É um nível psicológico, uma pressão que vai aumentando quando não temos a oportunidade de nos libertarmos dos pecados.” Mankell e o seu comissário Wallander conhecem bem as expressões dessa culpa e exprimem-nas desde o seu primeiro encontro, em “Assassino Sem Rosto”, de 1991.
Wallander é o protagonista típico do romance nórdico e valeu a Mankell o Grande Prémio da Academia Sueca de Literatura Policial. Ao contrário do chavão do detective duro e solitário, divide o seu trabalho com uma vida doméstica e quotidiana banais. Em “Um Passo Atrás”, acaba de perder o pai, preocupa-se com um diagnóstico de diabetes, com o que sente perante o homicídio de um colega ou a filha, Linda, que se tornará inspectora de polícia. No estilo directo e sucinto de Mankell, ele é um sujeito comum, que tem medos e pesadelos e se interroga sobre o préstimo da sua acção na pequena cidade de Ystad quando a criminalidade aumenta vertiginosamente na Suécia e o sistema judicial parece ter capitulado. Em tensão crescente, acompanhamo-lo até ao assassino, alguém que detestava ver pessoas a rir.
Embora publique muita da melhor literatura policial contemporânea, a colecção “Fio da Navalha”, da Presença, peca por vezes por atraso na publicação. “Um Passo Atrás” chega a Portugal nove anos após a edição original e já ultrapassado por outros dois volumes da série Wallander.

Um Passo Atrás, Henning Mankell, Editorial Presença, 424 págs.


SOL/ 14-06-2006
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)