Nunca ninguém se perdeu, tudo é verdade e caminho.
Fernando Pessoa



domingo, 31 de outubro de 2010

James Wood - Um Livro Por Dia


À bolina da ficção

Com o crítico literário James Wood entramos com facilidade no texto literário. O difícil, depois, é sairmos de lá.

«Escrever crítica está para escrever ficção e poesia como navegar à vista está para a navegação em alto mar.» Foi John Updike quem o disse na primeira linha de um dos seus melhores conjuntos de textos sobre literatura, Hugging the Shore (sem edição por cá). A frase serviria como excelente comentário ao ensaio A Mecânica da Ficção, não fosse o autor, James Wood (n.1965), crítico literário e romancista inglês, escancarar uma cultivada embirração por Updike (chama-lhe «estilista sumptuoso» mas, na sua boca, isso é ofensa). Wood fez fama primeiro em Inglaterra nas páginas do Guardian e, depois, durante doze anos, nas do New Republic, nos EUA. Em 2007, entrou para a equipa da New Yorker, sendo hoje um dos mais influentes críticos literários. Como se pode então atirar a pequena traineira do comentário e da análise às altas ondas da ficção? No caso de Wood, tanto pelo elogio como pelo exame agudo, usando metáforas ou hipérboles, mas sendo sempre meticuloso na leitura e análise dos textos e pródigo nas citações e na erudição literária. Em 2008, lançou o ensaio A Mecânica da Ficção, agora editado pela Quetzal com tradução de Rogério Casanova.
O título em inglês (How Fiction Works) e o da tradução portuguesa indicam que o livro pretende ser uma cartilha de acesso de «qualquer tipo de leitor leigo» à mecânica do romance e do conto. Wood quer «fazer as perguntas de um crítico e oferecer as respostas de um escritor». É estimável a intenção, bem como a inegável e contagiosa paixão do autor pela literatura (e a ideia de que tem de ser ela mesma a ensinar-nos a lê-la melhor). Não deixa, contudo, de ser também inegável a paixão do autor pelas suas próprias qualidades de crítico. Explica que «o que Barthes quer dizer é que […]». Logo no início do ensaio, cita Joyce quando este rejeita o «genuíno fedor escolástico», devendo presumir-se que ele mesmo, o impoluto Wood, se considera inocente de qualquer discussão escolástica nas actividades inerentes à sua função de professor de Prática de Crítica Literária na Universidade de Harvard. A sua aproximação ao texto busca dar «respostas práticas» e é nessa linha que A Mecânica da Ficção «conduz um debate sustentado contra» os formalistas Viktor Chklovsky e Roland Barthes. Wood assegura-nos que não precisa de mais do que recorrer aos «livros ao alcance da mão, no [seu] escritório» para nos oferecer este «pequeno livro». É o bastante para, capítulo a capítulo, dar a sua contribuição para o esclarecimento da mecânica da narração, do detalhe, das personagens, da linguagem, da gestão de temporalidades ou do diálogo, «uma breve história da consciência», reflexões sobre «complexidade e compaixão» e, last but no least, uma tese sobre «verdade, convenção, realismo». Tudo em 123 curtas secções de texto e pouco mais de 200 páginas. É obra. Nos EUA, muitos escritores e candidatos a escritores apontam já A Mecânica da Ficção como uma influência importante no seu trabalho. Missão cumprida. Mas estará mesmo?
De facto, toda a investigação de Wood serve exaustivamente para defender a tese central de que «a ficção é simultaneamente artifício e verosimilhança, e que não há qualquer dificuldade em suportar estas duas possibilidades». Ele quer explicar a «técnica desse artifício» e «voltar a ligá-la ao mundo». A tal tese sobre verdade, convenção e realismo é apenas a defesa de um certo realismo. O programa estético de James Wood é, afinal, naturalista e anti-vanguardista, com uma previsível colagem ao crítico inglês novecentista John Ruskin (a dificuldade que estes ingleses têm em, apesar de tudo, escapar à influência...). Wood confia na conjugação do poder mimético da ficção (sobretudo pela voz própria e interior das personagens) com a intuição criativa do autor. Ambas seriam formas de ligação verosímil e intimidade fiável do texto literário com o mundo real. Condição essencial para que isso acontecesse: rejeitar a omnisciência ou omnipresença do autor, expressas em intencionais exibições de estilo («esteticismo») ou na auto-complacente afirmação de um cunho autoral. Chave-de-ouro ou pedra filosofal: o autor mergulharia no interior da personagem através do uso do «discurso indirecto livre»; faria a narração numa terceira pessoa próxima, ponte e fusão de autor e personagem, aproximando-o de uma realidade que não lhe é desconhecida, mas que lhe é externa. Resultado: «Não temos a certeza absoluta sobre quem é 'dono' da palavra.» Em vez de «cravar as suas bandarilhas no mapa mental» da personagem, o autor deveria deixar-nos habitar nessa cartografia. No limite, diz-nos o crítico (na sua omnisciência, maior do que a do escritor), «a função do romancista é transformar-se, imitar aquilo que descreve, mesmo quando a matéria-prima é empobrecida, vulgar, entediante» (embora, por exemplo, a «decomposição da linguagem na América» seja «uma ameaça mimética para o escritor», sobretudo se ele se chamar Pynchon, DeLillo ou Foster Wallace, ou seja, figuras a abater pelo ambicioso Wood).
Está bem explícito nestas páginas o combate contra aquilo que, em 2001, numa crítica ao romance de estreia de Zadie Smith (Dentes Brancos), Wood cunhou como «realismo histérico»: o estilo megalómano, verborreico, caótico e dispersivo do autor sobrepondo-se à atenção ao enredo e ao desenvolvimento das personagens, logo, às «verdades humanas essenciais» que a ficção pode capturar e revelar. O crítico rejeita também a linha do «realismo comercial» (como em Le Carré ou P. D. James), marca ficcional mais lucrativa e monopolizadora do mercado. O romance, insiste, «é o grande virtuoso do excepcionalismo: consegue sempre livrar-se das regras com que o tentam manietar. E a personagem romancesa é o Houdini desse excepcionalismo.» Aos autores, caber-lhes-ia então colocarem-se ao seu serviço, libertos de qualquer contexto social, histórico, psicológico, ideológico ou sociológico em que se insiram (o que daria depois imenso jeito aos críticos que só teriam de concentrar-se, também virgens, no texto). Até Wood dar um pontapé final no traseiro daqueles que apontam o realismo como mera convenção morta, A Mecânica da Ficção aplica-se na sua reabilitação enquanto «impulso central na ficção» para a «fidelidade às coisas como elas são». E prescreve receitas para se chegar lá.
As impressões digitais de um grande escritor na grande ficção são, «paradoxalmente, identificáveis mas invisíveis». Para o justificar, Wood esgravata passagens de obras dos autores que mais estima, da Bíblia e Shakespeare a Henry James, Virginia Woolf, Jane Austen, Ford Madox Ford, José Saramago, Saul Bellow ou Ian McEwan. É um prazer assistir à sua invejável dissecação dos tais «livros ao alcance da mão». O crítico mostra-se entusiasta («Que tremendo exemplo de escrita é este!»), mas nunca condescendente («É útil ver bons escritores a cometerem erros»). Eleito Flaubert («ao mesmo tempo um realista e um estilista») como mestre da narração moderna, Wood discorre sobre o olho do autor e o olho da personagem, ambos em exercício de captação do detalhe. «O artifício reside na selecção do detalhe», afirma. E é também a exploração de detalhes que palpitam o que salva a leitura de A Mecânica da Ficção. A análise pormenorizada e a citação (esplendorosas nos capítulos dedicados às personagens e à linguagem) permitem-lhe mostrar a diversidade de registos, o carácter palpável e visual, a musicalidade, a eficácia da prosa. Mas é pena que Wood use esse dom para sustentar um plano de argumentação teórica. Porquê? Apenas e tão só porque qualquer argumentação teórica é saudavelmente contestável e, por essência, externa à ficção analisada. No limite, segundo a sua própria lógica, para deixar respirar a realidade e grandiosidade do texto literário, o crítico literário devia abter-se de teorizar sobre ela, limitando-se a sinalizá-la, descrevê-la e interpretá-la.
Ao defender que um romance fracassa «quando não consegue que o leitor se adapte às suas convenções [e às suas 'limitações expansivas'], quando não consegue engendrar uma ânsia específica pelas suas próprias personagens, pelo seu próprio nível de realidade», Wood advoga que o encontro do crítico e do leitor com o texto e o autor é um encontro de subtilezas («subtileza de análise, de investigação, de atenção, de pressão sentida»). Uma espécie de aperto de mãos misterioso e sensível. Depois, conclui: «A realidade ficcional é de facto construída a partir de 'efeitos', mas o realismo pode ser um efeito e simultaneamente ser verdadeiro». Afinal, os «grandes realistas, de Austen a Alice Munro, são também grandes formalistas.» E, dado que o romance, simultaneamente «natural e artificial», é uma convenção da vida — não mera verosimilhança ou veracidade, mas «a coisa mais próxima da vida» —, a palavra realismo deve ser substituída por lifeness: «a vida na página, a vida reanimada pela arte mais elevada».
Se tivesse havido na literatura, como houve (e ainda há) na pintura, uma luta entre arte abstracta e figurativa, é fácil percebermos onde estaria James Wood. Não exactamente no século XIX, mas talvez perto dos «novos figurativos». Wood defende, assim, uma teoria conservadora, bastante agressiva para a liberdade, afirmação e inovação estilística autoral e muito permissiva quanto à recepção impressiva por parte do crítico. É uma teoria respeitável e bem defendida. É apenas de lamentar que Wood também queira convencer os leitores de que ele escreve sobre a literatura tal como ela é. Propondo-se desfrutar e desmontar a arte da ficção como ela seria em si mesma, o crítico quer afinal ligá-la à vida como ela é. E a vida, tal como ela é, não existe por si só nos livros; as suas manifestações pluriformes pertencem à afirmação criativa, inalienável e intransmissível, de cada autor. Talvez seja isto o que, precisamente, acabará sempre por escapar a olhos realistas e a egos irrealistas, como o do crítico e ensaísta James Wood. Diz Laura Miller, no Salon.com: «Ele é sempre interessante, mas poucas vezes convincente. Ninguém o supera a dar a entender que a literatura é uma questão moral, mas o problema é que não nos faz querer ler os livros de que gosta.»


LER/Setembro 2010
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

sábado, 30 de outubro de 2010

Giorgio Agamben - Um Livro Por dia

Nudez e sombras

Todos com óptimas traduções pela Relógio D'Água, o italiano Giorgio Agamben, o esloveno Slavoj Žižek, o norte-americano John Rajchman ou o alemão Peter Sloterdijk produzem parte da mais inovadora e estimulante análise crítica da cultura e da política actuais. Em todos, com maior ou menor esforço, se descobrem pistas para entendimento dos problemas e desconstrução das ilusões. No ensaio «Criação e Salvação», Giorgio Agamben (n. 1942) aponta a filosofia como «profecia crítica», ainda que alerte: «Nascida de uma criação que permanece não consumada, acaba numa salvação imprescrutável e já sem objecto.»
Recém-editado, Nudez, data de 2009 e reúne dez ensaios de Agamben, súmula da sua procura de uma ontologia alternativa e de uma genealogia da governação política. O filósofo pratica um método arqueológico e paradigmático («a via de acesso ao presente tem necessariamente a forma de uma arqueologia», logo, de uma sombra, defende no ensaio «O Que É o Contemporâneo»). Investiga ligações entre estética, teologia, linguagem, literatura, ética e, fundamentalmente, teoria política. Herdeiro de Walter Benjamin, ex-aluno de Heidegger e co-autor, com Jacques Derrida, de obras sobre teoria literária e filosofia, actualmente ensina Filosofia em Veneza e em Paris. O tronco principal da sua investigação é a série Homo Sacer, iniciada em 1995 com Homo Sacer: o Poder Soberano e a Vida Nua e centrada  na redefinição do homónimo conceito jurídico romano (outros títulos: La Comunità che Viene (2001), Stato di Eccezione (2003) e Il Sacramento del Linguaggio (2008)).
«Nudez», que dá título ao livro, põe a nudez («inseparável de uma marca teológica») na base da reflexão sobre a «conexão essencial entre queda, nudez e perda da veste» (uma «teologia da veste»), a moda ou o «niilismo da beleza». Agamben, provocatório e diverso, trabalha a simbologia das tradições e mitologias, a natureza do indíviduo e das suas relações com o poder, a religião ou a arte, teoriza a biopolítica. No ensaio «Kalumniator», toma a «calúnia» para chave da obra de Kafka, explora ligações entre tortura e verdade, autocalúnia e confissão. Em «Uma Fome de Boi», parte da teologia talmúdica do Shabat para analisar práticas de ociosidade e festa. A originalidade do seu pensamento prende-se também com uma postura engajada e de intelectual público.
Em 2004, Agamben recusou o convite para proferir uma palestra nos EUA, por não se sujeitar à identificação biométrica (US-VISIT) praticada pelos serviços de fronteiras daquele país. Anos antes, abandonou o cargo de professor numa universidade de NY em protesto contra a «política de terror» praticada pelo governo George Bush ao abrigo da instrumentalização do atentado de 11 de Setembro (efeito do que o filósofo chama «Estado de Excepção»). Os fundamentos teóricos destas tomadas de posição estão no ensaio «Identidade Sem Pessoa».
Segundo o filósofo, centrar a identidade de cada cidadão na identificação biométrica e biológica irá reduzi-lo à «vida nua» (estritamente biológica): «qualquer coisa da qual [eu, sujeito] nada sei e com a qual de maneira nenhuma posso identificar-me ou distanciar-me.» Despidos da função e reconhecimento como «pessoa social», aproximamo-nos do deportado de Auschwitz, sem nome ou nacionalidade, reduzido a um número tatuado no braço. Uma hipótese assustadora se conjugada com a actual e «imparável deriva governamental do poder político, na qual convergem curiosamente tanto o paradigma liberal como o estadista».
Agamben clama por «uma ética no extremo limiar pós-histórico em que a humanidade ocidental parece ter-se afundado». Uma ética que unifica as propostas de «Nudez». Para aprofundar a aproximação às ideias do filósofo italiano, sugere-se Giorgio Agamben: A Critical Introduction, de Luland de la Durantaye (Stanford University Press, 2009).

Giorgio Agamben, Nudez. Tradução de Miguel Serras Pereira. Relógio D'Água, 137 págs.

LER/Outubro 2010
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Zhang Jie - Um Livro Por Dia


O fado da China

Zhang Jie descreve três gerações de mulheres, da China feudal à moderna

Em 2004, quando a China foi país-tema convidado no Salão do Livro de Paris, o slogan era: «Uma China eterna, uma China Diversificada, uma China Moderna.» Para uma aproximação às duas primeiras facetas do país, aconselha-se a leitura dos poetas chineses (Uma Antologia de Poesia Chinesa, Assírio & Alvim), de Lu Xun, de Pa Kin ou do Nobel dissidente Gao Xingjiang (A Montanha da Alma, Dom Quixote). Para perceber a China moderna, e à falta de tradução de obras de autores mais novos (por exemplo, Mo Yan, Yu Hua ou Xu Xing), leia-se Zhang Jie (n. 1937). A Gradiva acaba de editar Não Há Palavras (a partir da tradução italiana), épico semi-autobiográfico que cobre todo o século XX.
Apresentado como «o livro de narrativa contemporânea mais premiado da história da República Popular da China», Não Há Palavras narra como um homem (Hu Bingchen, descendente de aristocratas, depois velho dirigente do Partido Comunista) troca a mulher (Bai Fan, veterana da revolução) por uma vinte anos mais nova (Wu Wei, a protagonista), para, duas décadas depois, se divorciar dela e regressar à primeira. Desta história quase banal de amor, ódio e vingança nascem outras personagens que circulam no tempo, da China da guerra do ópio em 1840 (tempo de Mohe, a avó de Wu Wei, filha de um literato) até às lutas entre nacionalistas e comunistas (o da mãe, a mestre-escola Ye Lianzi), à guerra de resistência ao Japão (o do pai, o iletrado Gu Qiushui) e a Mao e à Longa Marcha.
Zhang Jie, jovem dirigente do partido comunista, desterrada para o campo em 1969 e plena Revolução Cultural, afirma-se «uma artista com forte consciência social». O seu olhar sobre a história política e moral dos chineses parte da intimidade de três gerações de mulheres sofridas, que questionam: «Quantas vidas, quanto sangue e quanto suor se desperdiçaram para assinalar toda a passagem de poderes?»
Wu Wei, escritora famosa, acaba louca. Como a avó e a mãe, pretendera «sempre demais dos outros». Essa foi a maldição das três mulheres, o centro dramático de Não Há Palavras, sustentado pelo tom algo passado e sentimental da narração. Entaladas entre a China feudal e a China moderna, as personagens têm apenas uma convicção: «O destino podia mudar ou não? Seja como for, era sempre o fado a decidi-lo.»

Não Há Palavras, Zhang Jie, Gradiva, 290 págs.

Sol/01-10-2010
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quinta-feira, 28 de outubro de 2010

A Felicidade - Um Livro Por Dia


Quanto vale a felicidade?

O exemplo é destacado pelo economista suíço Richard S. Frey. No final dos anos 80, Jigme Singye Wangchuck, quarto rei do Butão, «proclamou a 'Felicidade Nacional Bruta' como principal força orientadora do seu país». Perante a tão propalada crise económica mundial, tal medida seria improvável num país europeu. E, contudo, é sobretudo hoje que faz sentido escutar os teóricos da corrente Economia do Bem-Estar, a sua defesa de um Estado com funções alocativa, distributiva e estabilizadora e a convicção primeira de que a raiz dos problemas económicos pode ser analisada a partir da avaliação do bem-estar «subjectivo declarado» de cada cidadão. Felicidade: Uma Revolução na Economia, de 2008, é um ensaio marcado pela ainda difícil aplicabilidade prática do modelo da economia do bem-estar. Mas é premente lê-lo para equacionar uma outra visão económica 'de futuro', talvez mais esperançosa do que a que nasce dos métodos positivistas.
O estilo é simples, claro, directo ao assunto, revisto e resumido no final de cada um dos 15 capítulos das três partes do ensaio. Nada de «economês» complicado; aqui fala-se mais 'do que deve' ser a economia e este discurso adapta-se bem às convicções ou suspeitas do cidadão pouco conhecedor de teoria económica. O tom didáctico do perito mundial Richard S. Frey advém-lhe da experiência pedagógica (é professor de Economia na Universidade de Zurique e no Instituto Federal Suíço de Tecnologia), mas também da posição pioneira na aplicação da psicologia à economia. Não é à toa que Frey refere como 'co-autor' o seu núcleo académico de investigação (o Grupo de Zurique): interdisciplinar, não-convencional, de orientação empírica e preparado para a procura de «conclusões políticas».
Pondere-se em cada página a utilidade da investigação da felicidade em economia: metodologias de medição, análise de causas e efeitos, procura de relações entre a felicidade e o rendimento ou o desemprego, «efeitos da inflação e da desigualdade sobre a felicidade». São elucidativas as abordagens ao emprego por conta própria ou ao trabalho voluntário, ao casamento ou ao sobreconsumo de televisão, as comparações entre os EUA e a Europa. Frey firma a «felicidade sustentável» como desafio à economia ortodoxa e às instituições políticas. Ainda incompleto, mas incontornável.

Felicidade: Uma Revolução na Economia, Richard S. Frey, Gradiva, 357 págs.

SOL/27-04-2009
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quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Man Booker 2010 - Um Livro Por Dia


O último a rir

O prémio Man Booker é atribuído pela primeira vez a um romance cómico

Anunciado no passado dia 12, o Man Booker Prize for Fiction 2010 seguiu direitinho para as mãos do escritor, jornalista e humorista Howard Jacobson. Pela primeira vez em 42 anos de história do prestigiado prémio britânico, distinguiu-se um romance cómico, The Finkler Question (Bloomsbury), com três votos do júri a favor e dois contra. Presente na 'long list' em 2002 (com Who's Sorry Now) e em 2006 (Kalooki Nights), Jacobson surpreendeu todos ao bater os principais favoritos da 'short list' deste ano: Tom McCarthy (com C, descrito como o romance de um pós-modernista lírico) e Peter Carey (cujo brilhante Parrot e Olivier na América poderia tê-lo feito tri-vencedor do galardão). Com onze livros de ficção editados desde 1983, a bibliografia de Jacobson inclui títulos de não-ficção, como Roots Schmoots: Journeys Among Jews (1993) e Seriously Funny: From the Ridiculous to the Sublime (1997), ambos adaptados para séries de televisão. The Finkler Question é um ambicioso exercício de humor sobre o que significa hoje ser-se judeu na Grã-Bretanha.
Howard Jacobson, nascido em 1942 em Manchester, descreve-se como «uma Jane Austen judia». Não frequenta a sinagoga, mas diz-se fiel herdeiro da cultura da diáspora judaica. Insiste na judeicidade da sua escrita, perfilando-se numa tradição de humor que, com Woody Allen à cabeça, se associa à inteligência baseada num complexo equilíbrio entre auto-depreciação e orgulho de pertença (expressão máxima na in-joke, típica piada judia). Da mesma matéria é feita a história de Julian Treslove, 49 anos, um frustrado produtor na elitista Radio 3 da BBC que se rói de inveja pelo sucesso do seu ex-colega de escola, Sam Finkler, filósofo pop, autor de bestsellers como Um Existencialista na Cozinha ou Manual da Menstruação. O que Treslove deseja acima de tudo é ser um judeu, como Sam ou o ex-professor de ambos, o checoslovaco Libor Sevick, biógrafo de estrelas de cinema. The Finkler Question é um hino ao reencontro entre Julian e os recém-viúvos Sam (anti-sionista) e Libor (pró-israelita). Segundo Andrew Motion, presidente do júri do Man Booker, trata-se de um romance «muito inteligente e muito divertido», mas também «muito triste e melancólico», como «uma gargalhada no escuro». O público alvo são «os adultos que compreendem que a comédia e a tragédia estão intrinsecamente ligadas».

SOL/15-10-2010
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Saša Stanišić - Um Livro Por Dia


As listas de Aleksandar

«Há algures uma Bósnia assim, perdoa-me,  / uma terra fria e pobre, /Faminta e nua, / E, além disso, ainda, / Perdoa-me, / Casmurra / De sono.» A citação é do poeta bósnio Mak Dizdar (1917-1971). Aos 28 anos, em 2006, Saša Stanišić integrou-a no romance de estreia, Como o Soldado Conserta o Gramofone, e ela servir-lhe-ia bem de epígrafe. Sabemos que existe algures na Ilíria, a noroeste dos Balcãs, aquela Bósnia (e Herzegovina), antes parte do Reino da Hungria, dos impérios otomano ou austro-húngaro, do Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos ou da Jugoslávia de Tito, espaço real de uma espantosa, explosiva miscigenização de povos. Imaginamos essa Bósnia a despertar, por fim, dos traumas de séculos condensados em quatro anos de terrível guerra civil (1992-96: 100 mil mortos, dois milhões de deslocados), mas ela (como a maioria dos países de leste) é por natureza uma identidade com uma mecânica complexa, autónoma e ainda inatingível. Um teimoso «quebra-cabeças por acabar», marcado pela inocência e pela originalidade, como pela resistência e pela crueldade. Stanišić projecta-o no delirante emaranhado de histórias narradas por Aleksandar Krsmanović, «estudante, neto, refugiado, com o cabelo comprido, com orelhas grandes, em busca da sua memória», protagonista de Como o Soldado Conserta o Gramofone.
Como Stanišić, o adolescente Aleksandar é filho de uma bósnia e de um sérvio, neto de muçulmanos, e, em 1992, adolescente, assiste ao cerco da guerra à sua cidade, Višegrad - cenário de Uma Ponte sobre o Drina (1945), de Ivo Andrić. A fuga com os pais para o sul da Alemanha acompanha o desmoronar do mundo confortável e circular da infância. Pelo caminho, morto o avô Slavko contador de histórias, Aleksandar toma dele essa função, vive peripécias tragicómicas, busca o paradeiro do primeiro amor (Asija, a amiga de infância), escreve um livro (que será uma secção do romance), protagoniza um monólogo plástico que (re)cria o aburdo da catástrofe até ao confronto final com a História e com os mitos.
Aleksandar gosta de listas e este é o romance da (também estilisticamente) anárquica enumeração de vivências, aprendizagens e visões de um adolescente/criança encantador sujeito a um destino violento e confuso. A estratégia narrativa não é original e Stanišić, ainda inexperiente, por vezes não resiste a metáforas gratuitas ou demasiado rebuscadas, que, mascaradas como falsas inocência ou poesia espontânea, retiram consistência à personagem. Ainda assim, este é um excelente romance e mais um alerta para a urgente atenção para a fértil literatura hoje produzida no Leste Europeu.

Como o Soldado Conserta o Gramofone, Saša Stanišić, Quetzal, 381 págs.             


LER/Fevereiro 2010
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Bret Easton Ellis - Um Livro Por Dia

Auto-retrato do vazio

Bret Easton Ellis sai de moda com a sequela de Menos Que Zero. Quartos Imperiais é um romance falhado.

O que aconteceria se Quartos Imperiais fosse assinado com um pseudónimo? Muito provavelmente, leitores e crítica colocá-lo-iam na prateleira dos page turners de aeroporto, sem valor literário de maior. Sétimo romance de Bret Easton Ellis e sequela da estreia Menos Que Zero (1985), Quartos Imperiais vive da aura mediática que ainda rodeia o autor norte-americano, hoje com 46 anos. Em quase 180 páginas, apenas uma frase, ainda assim banal, merece ser citada: «Tristeza: está em toda a parte.» Nela se resume o que resta do que fez a fama de Easton Ellis e de Clay, o seu narrador amoral, cujo monólogo recheado de drogas, sexo e violência definiu uma geração e fez escola, numa linha enviesada do new journalism de Capote. Vinte anos depois, Clay, agora argumentista e produtor, surge transformado «durante um longo momento em alguém simultaneamente jovem e velho», incapaz de superar um olhar imaturo e autocentrado. O resgate das emblemáticas personagens adolescentes de Menos Que Zero não passa, em si mesmo, de um elogio ao vazio; de novas ideias e de estilo [cujo minimalismo é ajudado pela deficiente revisão da tradução portuguesa]. Como Clay, Ellis está cheio de «fantasias sobre si mesmo». Mais presente nos seus livros e mais autocomplacente do que nunca.
Já no romance anterior, Lunar Park (2005), Ellis recorrera aos arquivos de personagens e memórias pessoais para rechear um enredo pouco consistente, que a crítica recebeu dividida e a tombar para a desaprovação. Retomando a referência, no título Menos Que Zero, a uma canção de Elvis Costello e citando o cantor em epígrafe («A História repete as velhas pretensões, as mesmas réplicas superficiais, os mesmos revezes...»), Quartos Imperiais levou o escritor a mudar-se, em 2006, para Los Angeles, de forma a embrenhar-se no meio artístico e mundano de Hollywood. Nessa mudança, muita coisa o associa a Clay. Autor de argumentos de relativo sucesso e por isso não muito influente, mas suficientemente reconhecido para circular por ali, o novo Clay chega à cidade na época natalícia, após uma conturbada estadia em Nova Iorque.
A narrativa arranca com o jogo metaficcional que será a sua chave principal: Clay comenta o filme, e o livro, que alguém fez sobre as experiências do seu grupo de juventude, partilhando «com o mundo os nossos revezes secretos, exibindo a indiferença juvenil e o niilismo brilhante e apresentando o horror de tudo isso de forma atraente». É clara a alusão à adaptação cinematográfica de Menos Que Zero, em 1987, e resulta a associação com as pretensões de Ellis quanto a esta sequela e à repetição de uma perspectiva social original. Quartos Imperiais retoma de um modo moralista a tentativa de revelação da violência que subjaz a vidas reguladas pela superficialidade. Tudo pode ser falso ou falsificado: personagens, actores, realidade, ficção. Foi daí que nasceu o horror do retrato do psicótico yuppie de American Psycho (de 1991), a sua revelação opressiva. Mas o efeito perde-se hoje, na era da intimidade pornográfica dos reality shows e da exibição massiva da violência nos telejornais.
Ellis quer homenagear Raymond Chandler. O mote negro de Quartos Imperiais é dado no início pelas informações sobre o assassinato de Julian e o reaparecimento circunstancial de Blair, Trent e Rip na vida de Clay. O narrador protagonista prepara-se para acompanhar a escolha do elenco para um novo filme. Entretanto, inicia uma relação com uma candidata a actriz, Rain, que se revelará uma prostituta envolvida numa complexa rede de actividades suspeitas e ligada a todos os seus amigos de adolescência. Perseguido por um jeep azul e por sms anónimos, Clay é vítima da dor do medo. Um medo que o álcool e as drogas não apagam. Ellis quer que o associemos ao vazio existencial e à solidão da personagem e, a julgar por entrevistas recentes, não se importa que o tomemos por autobiográfico.
Perdido entre cansativos maneirismos [já todos conhecemos este Hollywood explorado até à exaustão pelas revistas sociais], incontáveis referências à cultura pop contemporânea e a marcas e gadgets [a influência massiva da publicidade há muito que apagou a originalidade deste efeito literário], Clay, «um tipo muito amargo», habita um mundo de fingimento e fracos laços afectivos. Ellis explora-o para nos dizer que só pode terminar em violência gratuita. Contudo, ela é tão gratuita como a sucessão de lugares-comuns ou a referência a vídeos parentes dos snurff movies, nos quais assistimos a torturas e execuções. Sem a vitalidade dos satíricos e violentos retratos sociais de J.G. Ballard ou Tom Wolfe, por exemplo, Quartos Imperiais alimenta-se apenas do narcisismo de Bret Easton Ellis, como o de Martin Amis transferido mimeticamente para as personagens. A revelação literária do pequeno mundo de um autor famoso e do seu delirante diálogo interno está cada vez mais fora de moda.

Quartos Imperiais, Bret Easton Ellis, Editorial Teorema, 179 págs.

SOl/27-08-2010
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

domingo, 24 de outubro de 2010

Robert Musil - Um Livro Por Dia

As possibilidades de Musil

Estamos nesse «limiar de um tempo novo» que foi o início do século XX, e no seu epicentro europeu: Viena, capital do Império Austro-Húngaro. Ulrich, um matemático sem sentido prático, pretende renovar o encantador palacete que o seu pai acabou de alugar. O problema é que as ideias sobre o assunto lhe surgem desconexas, marcadas por uma «dispersão sem centro, característica do momento presente e dessa sua estranha aritmética que quer abarcar tudo de fio a pavio sem encontrar uma unidade».
Estamos no início do primeiro dos dois volumes da narrativa inconclusa «O Homem Sem Qualidades», trabalhada pelo alemão Robert Musil até à sua morte, em 1942, exilado na Suíça. Ao longo das mais de 1200 páginas seguintes, Ulrich tirará férias da vida para circular pelos salões, pesquisar um assassino de prostitutas, descobrir uma irmã esquecida... Sobre tudo, ele será um protagonista destituído de qualidades. Porque, afinal, aqui não há verdade nem fim. Tudo é aleatório e diverso. Como podem existir certezas, exactidão e alma? Para mais, a História provará que o «tempo novo» é afinal o da loucura da guerra e do nazismo.
Trata-se «da» novidade do ano editorial. Publicados nos anos 70 a partir de uma tradução francesa, os dois primeiros volumes de «O Homem Sem Qualidades» (revistos e finalizados pelo autor) acabam de regressar às livrarias pela Dom Quixote, traduzidos do original alemão. Entretanto, o tradutor João Barrento (filósofo, ensaísta, crítico literário e professor de Literatura Alemã na Universidade Nova de Lisboa) finaliza a edição de um terceiro volume. Inédito em Portugal, este será composto por todo o material de continuação da narrativa deixado incompleto por Musil, a base para os complexos estudos e organização póstumos da sua obra.
«O Homem Sem Qualidades» é um anti-romance, uma obra aberta como o exigiam as ambiciosas, experimentais e cépticas pesquisas do autor (formado em Engenharia e Matemática, Psicologia e Filosofia). Um monumento à literatura como «cristalização de possibilidades», porque a possibilidade é antes de mais a «capacidade de pensar tudo aquilo que também poderia ser e de não dar mais importância àquilo que é do que àquilo que não é».

O Homem Sem Qualidades(vols. I e II), Robert Musil, João Barrento (tradução), Publicações Dom Quixote, Vol I: 847 págs., Vol. II: 455 págs.

SOL – Que qualidades particulares deve ter o leitor de «O Homem Sem Qualidades»?
JOÃO BARRENTO – Como algumas outras grandes obras modernistas, esta é uma epopeia experimental que exige resistência e persistência. É uma leitura para corredores de fundo. Não porque se trate de um romance dificil ao nível da linguagem (como o são, por exemplo, «Ulisses» e «Finnegans Wake», de James Joyce), mas porque é extremamente rico enquanto romance-ensaio ou de pensamento, alimentado pela informação muito sólida e vasta que Musil possuía.

S- Como é que a singular visão do mundo de Musil se revela na estrutura do romance?
JB – É uma visão que se enquadra no espírito das primeiras décadas do século XX. Antes de mais, no interesse contemporâneo pelo ponto de vista científico e na avidez de Musil por tudo o que se está a passar. O seu interesse pela Matemática projecta-se na intenção de fazer funcionar a personagem com uma exactidão matemática. Esse é um dos dois pólos mais importantes da construção do romance. O outro, ao qual Musil chama «a alma», é a tentativa de perceber os estados anímicos das personagens, enquadrável num interesse pelas então novas concepções da mente humana. A fusão destes dois pólos na experiência de vida é aquilo que se torna mais interessante.

S - O que é que o terceiro volume lhe acrescenta?
JB – No segundo e terceiro volumes, surge um terceiro pólo, que Musil identifica como o «outro estado». Manifesta-se numa espécie de horizonte utópico - e nunca resolvido - que o protagonista tenta encontrar através da relação incestuosa com a meia-irmã Agathe.

S – Qual é o papel da ironia em Musil?
JB – É uma das marcas principais e aparece como instrumento narrativo na acção política e na acção amoroso-erótica (aqui, uma ironia mais fina). A ironia, tal como a clareza e o rigor, podem funcionar como apoio para o leitor. Porque este é um romance complexo, mas oferece, ao longo do texto e sobretudo nos diálogos, muitas pistas explicativas que permitem perceber melhor as personagens.

S – Como é que acha que Musil gostaria que se lesse «O Homem Sem Qualidades»?
JB – Ele dizia que se podia «lê-lo» ou «ler nele». Ou seja, defendia que o romance pode ser lido em fragmentos, numa ordem aleatória, ou na íntegra. Mas dizia também que devíamos lê-lo das duas maneiras para o conseguirmos apreender em pleno... Creio que o regime de hipertexto da obra, que permite ler excertos sem que se perca muito da sua grandeza, é um dos motivos por que ela é hoje tão citada, por exemplo, nos blogues. No meu caso, li pela primeira vez o romance no final dos anos 70, bastante depois da universidade (de onde ele está bastante arredado provavelmente porque se trata de uma tarefa difícil). Depois, fui-o lendo para o ir dando nas aulas e, há cerca de quatro anos, fiz por fim uma leitura mais activa, para reactivar o texto. Ler Musil é uma engrenagem que vai acontecendo, uma experiência de contacto também com a formação obsessiva, impressionante, do autor. (que podes cortar se não houver espaço)


SOL/12-04-2008
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

Presos à leitura... em 1998

Microcosmos do país que temos, nas prisões portuguesas ler é um acto raro mas precioso. Para alguns, ele é sinónimo de evasão e de conforto.

O tempo parou à porta. Aqui, no Estabelecimento Prisional de Tires, só há «condenadas». Que se apresentam, cada uma delas, assim: «Eu sou fulana, x anos de pena, y cumpridos.» Mulheres restringidas ao molho de folhas de um processo judicial, depois a uma sentença, a um número, a uma cela, a um balde para dejectos, a uma esperança lá longe. Entre elas, Laura Macedo, 33 anos, toxicodependente condenada por homicídio há cinco. Uma figura alta, com uma bata aos quadrados, as mãos calejadas e uma boca maltratada que sorri com vergonha. E que diz: «A leitura faz-nos ir até onde quisermos. Se alguém tiver um livro, já não morre.» Nas prisões nacionais, ler é uma das melhores formas de simular a liberdade. Uma arma capaz de restituir a dignidade e a capacidade de pensar a homens e mulheres condenados à solidão e à rotina mais penosas. Dos 52 estabelecimentos prisionais portugueses, 50 têm biblioteca. Milhares de volumes circulam entre as mãos dos seus 14582 ocupantes. Ali, onde cada sujeito passa a ser apenas um «recluso», alguém que se pretende afastado da sociedade e da vida, encontrámos alguns verdadeiros leitores. Daqueles que cumprem à risca todas as regras desta arte. Que seleccionam, comentam, analisam os livros. Que os devoram de um dia para o outro, à noite, no silêncio das celas. Que incarnam as suas histórias e voam através das grades. Dois compassos de espera, o ajustar da chave e do ferrolho, o som seco do gradão que se fecha nas nossas costas. Um corredor longo e dois homens encostados às paredes, entre dois vasos de flores, a sorver os seus cigarros. Depois outros, a caminhar sem pressa, como se os pés pesassem quilos e eles quisessem esticá-los até ao infinito. E um que explica: «Aqui, um minuto é um dia, um dia um ano, um ano...»
O autor da frase é António Tomás, 32 anos, preso preventivamente há 4 meses no Estabelecimento Prisional (EP) da Covilhã, por suspeita de homicídio. Está sentado num caixote de madeira, a descascar batatas para um alguidar, metido dentro de uma bata azul desbotada e demasiado curta. Conta que é empresário, filho de agricultores e que tem o 11º ano incompleto. Antes de ser preso, só lia jornais. «Livros, muito poucos, porque não tinha tempo. Achava a leitura um passatempo. Aliás, ela é uma coisa secundária se a pessoa não for viciada.»
No primeiro mês que passou na cadeia, António fartou-se de magicar. Esqueceu parte da sua história, passou por «momentos terríveis». Na sua cela, que partilha com mais seis reclusos, descobriu entretanto a leitura. Começou por devorar os livros de Camilo Castelo Branco, para os quais «lá fora» todos lhe chamavam a atenção. Chorou com as páginas de volumes dos quais hoje já não se lembra do título ou da história. Habitou-se a ir buscar dois livros à biblioteca todos os domingos e quartas-feiras. Ler tornou-se, de repente, um passatempo essencial. Como António, parte dos reclusos portugueses agarra-se à leitura para lutar contra o isolamento e a monotonia do dia-a-dia. Complementar aos programas de trabalho, ensino ou ocupação dos tempos livres, existentes em todas as cadeias nacionais, ler é uma decisão individual, uma forma de afirmação da personalidade e de evasão.
Tal como defende Otília Gralha, 43 anos, chefe da Divisão dos Serviços de Educação, Ensino e Animação Socio-Cultural da Direcção-Geral dos Serviços Prisionais, «em Portugal lê-se pouco, nas prisões lê-se mais». Com uma taxa de analfabetos ou indivíduos apenas com a instrução primária a rondar os 50%, a população prisional é em simultâneo uma surprendente base de reflexão sobre as potencialidades da leitura.
IR PARA FORA... A biblioteca do EP da Covilhã serve bem de exemplo. Instalada numa sala de aula no primeiro piso do edifício central e aberta das nove da manhã às sete da noite, contém 2612 livros e cerca de 15 revistas renovadas periodicamente e é visitada com regularidade pelos 143 reclusos desta cadeia regional. Em Maio último, cedeu 72 livros a 20 leitores com habilitações académicas desde o primeiro até ao terceiro ciclos. Sendo o romance e a banda desenhada os géneros de eleição em todas cadeias, pasme-se com a lista de volumes mais requisitados nesta, nos últimos meses: Os Filhos da Droga, de Christiane F., Vai Aonde Te Leva o Coração, de Susanna Tamaro, Constituição da República Portuguesa, Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Marquez, O Esplendor de Portugal, de António Lobo Antunes, Freud para Principiantes ou A Casa do Fim, de José Riço Direitinho.
Amândio Baptista, 44 anos, está há cerca de três no EP de Pinheiro da Cruz, a expiar uma pena de sete por tráfico de haxixe. Membro da Comissão dos Reclusos e um dos responsáveis pela biblioteca do estabelecimento, clarifica: «Na cadeia, ler é um sinal de prestígio. Serve para nos mantermos vivos e actualizados. É curioso que as pessoas mais degradadas, aquelas que não têm televisão na cela, têm poucos meios financeiros ou foram abandonadas pela família e pelos amigos, são as que mais procuram os livros.» Para este ribatejano, ex-comerciante de pronto-a-vestir, é certo que quase todos os 311 utentes daquela biblioteca (numa população de 517 reclusos em regime fechado e 240 em regime aberto) requisitam por dia um dos oito mil volumes disponíveis, «porque trouxeram lá de fora hábitos de leitura». Amândio não acredita muito na recuperação através dos livros ou dentro da cadeia. Mas não deixa de dizer que sim com a cabeça quando um outro recluso fala da leitura como forma de «fazer voar a imaginação». E lembra que o seu pai, também comerciante, tinha por companheiras permanentes de mesa de cabeceira as Selecções do Reader’s Digest e, por isso, lhe passou este hábito. Da memória, resgata ainda o enredo de O Prémio, de Irvin Wallace, lido aos 17 anos. «O livro marcou-me muito e aqui na cadeia percebi que a inveja entre aqueles dois galardoados é real também na nossa vida.» Dentro de uma prisão, a ficção e a realidade andam por vezes de mão dada.
Que o diga Hadwan, 30 anos, cidadão libanês a cumprir uma pena de 5 anos e seis meses na cadeia do Linhó. A sua história parece saída direitinha de um romance picaresco. Hadwan vivia no Paraguai quando, em 1996, decidiu «vir de férias» pela primeira vez a Portugal. A bagagem vinha tão carregada de droga que, logo no aeroporto, a nossa personagem foi barrada e imediatamente levada para a prisão. Sem conhecer nada do país onde passaria os próximos anos — «só sabia quem tinha sido o Vasco da Gama» —, nos primeiros dias no Linhó, Hadwan precipitou-se para a biblioteca e requisitou todos os livros que encontrou sobre História de Portugal. Hoje já diz do alto do seu português com pronúncia arrevezada: «Depois de ler, percebi que os portugueses são muito parecidos com os árabes que andaram por cá muito tempo. Às vezes, até a comida cheira à minha terra.» Já conhece os portugueses, Hadwan? «Só os ‘maus’», responde com um sorriso.
LÁ DENTRO Uma viagem ao universo da leitura nas cadeias é uma bofetada de luva branca nos chavões com que a sociedade tem por hábito catalogar os reclusos. Quem imaginaria, por exemplo, que o nosso Hadwan fosse senhor para dizer que prefere «os escritores russos, porque entram com mais facilidade pela narração histórica ou da guerra»? Ou que António Tomás, o que descasca batatas na cozinha do EP da Covilhã, afirmasse: «A palavra ‘livro’ tem que se lhe diga. Um livro é um conjunto de letras que define a realidade de cada um. Ninguém escreve sem razão e, por vezes, ela coincide com a do leitor.» Luís Manuel, 33 anos, que está no EP do Linhó há nove anos a cumprir uma pena de 17, assegura que o seu autor preferido é Carlos Drummond de Andrade «pelo jeito simples e descritivo da sua prosa, como um eu lírico a descrever as coisas». Para este cidadão brasileiro, a leitura «foi como uma chamada». Hoje, é o seu maior refúgio quando, à noite, sozinho na cela, «as ideias se espalham muito e [precisa] de qualquer coisa para manter o rumo e [o] orientar para pensamentos mais positivos».
Essa qualquer coisa são os livros, companheiros que Luís descobriu aos 15 anos, com a leitura de O Principezinho, de Saint-Exupéry. Na cadeia, retomou a conversa com eles, desvendando as páginas de Herman Hesse, Nietzche, Eça de Queirós, Piaget ou Jostein Gaarder. Por instinto, descobriu então algumas das regras dos bons leitores. «Aprendi a não julgar um livro pela capa. Faço anotações em rodapé e, passado um ano, quando volto à mesma leitura, descubro que evoluímos muito entretanto, eu e o livro.» O vizinho da cela da frente da de Luís é Victor Hugo. Encontramo-lo perto do refeitório, no labirinto dos corredores e edifícios do EP do Linhó, a cadeia central com a população mais jovem: cerca de 700 reclusos, com uma média de idades de 23 anos, mas já com penas pesadas ligadas sobretudo ao universo da droga.
Victor Hugo é mexicano, tem 27 anos e, tal como Hadwan, veio para Portugal «de férias». «Depois, foi tudo tão rápido que nem dei conta», lembra. Já cumpriu três anos de uma pena de nove. Apaixonado pela «cultura e pelos livros em geral», frequenta as aulas de pintura e de teatro do EP e faz exercício três vezes por semana. Antes de ser preso, sonhava tornar-se actor ou publicitário. Mas o destino trocou as voltas da vida deste rapaz alto e forte a quem a mãe pôs o nome do célebre autor francês porque, quando estava grávida, o marido lhe ofereceu um exemplar de Os Miseráveis. Victor não desdenha a herança do seu nome. Trabalha na biblioteca da cadeia, «o sítio mais tranquilo onde se pode estar». Tal como diria o sábio Luís Manuel, «a liberdade também está na cabeça das pessoas, é lá que a gente viaja melhor».
UMA PARTILHA Na parede, uma folha A4 com o desenho de uma palmeira. E uma frase, não assinada: «Sonho é o ópio mental com que se embriagam os que fogem à realidade.» São dez e meia da manhã e estamos na biblioteca do pavilhão três do EP de Tires, um exíguo compartimento anexo à sala de aulas. Maria José Dinis, a responsável, acaba de ser mudada para o RAVI (Regime Aberto Virado para o Interior) e sente a falta das suas companheiras de cela.
Lá fora o barulho é ensurdecedor. Penduradas nos varandins dos três pisos do edifício, as mulheres gritam, resmungam, conversam, outras arrastam as chinelas, bidons e baldes de água suja pelos corredores. A voz metálica dos altifalantes vai chamando números. No pátio, grupos de ciganas olham desconfiadas, duas mulheres fazem malha sentadas num vão de escada. Fechada a porta da biblioteca, abre-se um mundo dentro de outro, cheio de rotinas, territórios e papéis bem definidos. Maria José Dinis, 24 anos, conta a sua história enquanto arranca nuvens de fumo de um cigarro. Condenada por tráfico há dois anos, «apanhou» quatro e meio de pena. A culpa, diz, foi da desorientação em que se sentiu depois de acabar o 12º ano. «Como escape, passava a vida em festas. Fui presa com 17 comprimidos e três selos de LSD.» No caminho de Castelo Branco para Tires, vinha a sonhar que a carrinha tivesse um acidente, não queria acreditar no que lhe acontecera, entrara em pânico. No primeiro dia na cadeia, mentalizou-se de que «não havia saída». Só depois vieram os sentimentos de revolta e de total impotência.
No meio do «pesadelo», agarrou-se à amizade com as duas mulheres com quem até agora partilhava uma cela de dois por três metros e meio, onze horas por noite ali fechadas. Construiu o seu «cantinho» com Rosa Santos, 37 anos, condenada a três e meio por conivência em burla agravada, e Joana Salada Relvas, 24 anos, ex-manequim, ex-estudante universitária de Línguas e Literaturas Modernas, há cerca de dois anos e meio condenada a oito por tráfico de estupefacientes. «Ali, sentimo-nos menos presas e mais protegidas», explica. Durante a noite, quando o silêncio apenas é cortado pelo grito de alguém que adoece, quer comprimidos para dormir ou se envolve numa rixa, as três mulheres mergulhavam na conversa e nos livros. Joana, que trouxe «lá de fora» fortes hábitos de leitura, tornou-se a mentora do «desenvolvimento da personalidade» das outras duas. Seguindo as preferências da sua mãe, levou-as até às páginas da Bíblia ou da literatura mística de Paulo Coelho, Carlos Castañeda e James Redfield. Livros que Maria José põe hoje à frente dos romances, «demasiado fúteis, vagos e utópicos».
VÍCIOS E FUGAS
Para Maria José, que antes só lia os livros da escola ou «um policial ou outro para distrair o cérebro», na cadeia a leitura passou a significar «uma libertação». E defende: «Os livros servem para aliviar o nosso sofrimento e encararmos a nossa passagem por aqui apenas como uma paragem na vida lá fora para fazermos um balanço da nossa vida.» Rosa, uma apaixonada por jornais — «literatura mais realista...» —, procurou na leitura uma distracção e mensagens positivas que a confortassem. Encontrou «alguns momentos de felicidade», só comparáveis à euforia que rodeia o momento das visitas ou ao convívio e desabafo com as amigas. Estamos já perto do meio-dia, hora do segundo «conto» (em Tires, as reclusas são contadas três vezes por dia), em seguida da entrega das marmitas e dos sacos das visitas. Deixamos Maria José e Rosa e conversamos com Joana numa sala de um outro edifício. Tem longos cabelos castanhos bem cuidados, uma cara bonita e umas mãos que tremem a denunciar o terrível desajuste entre ela e esta cadeia. «Isto é um massacre», desabafa. Sente-se livre por estar durante meia-hora longe do pavilhão onde é raro atrever-se a pôr o pé fora da cela. «Estou muito deslocada aqui. Entro em permanente conflito com o sistema.»
Com uma formação e vivências distintas da maioria das outras reclusas, Joana é a pedra na engrenagem ou, vista a coisa por outro prisma, um dos nomes mais sonantes no pavilhão três de Tires. Teve muitas depressões desde que aqui entrou, já tentou suicidar-se e recorre com frequência aos fármacos que são amplamente fornecidos pela instituição. Diz: «Sem o apoio da família e a leitura, eu estaria abandonada dentro desta sociedade fechada.» Há dois meses, «em desespero de causa», começou a trabalhar na oficina de montagem de utensílios domésticos que, com as oficinas de tapetes de Arraiolos, de encadernação de livros, a escola e a elaboração de um jornal, constitui uma das formas de ocupação dos tempos livres para as reclusas em regime fechado do pavilhão três. Cedo se revoltou. «Trabalhamos de manhã e à tarde num trabalho monótono e estupidificante e pagam-nos no máximo cinco contos por mês. Não é justo.»
Para escapar «ao terror disto tudo», Joana foi buscar força aos livros. No primeiro ano, de um modo quase obsessivo. «Agarrei-me a uma visão mais espiritualista da vida. Passava os dias fechada na cela a ler, o que depois se tornou não num prazer ou num passatempo, mas numa obrigação.» Hoje, lê menos e escreve mais. Guarda cópias feitas com papel químico das cartas que envia aos amigos e à família e onde expõe as «reflexões a que [chegou] sobre a nossa sociedade». E faz suas as palavras de James Redfield, o autor do seu livro preferido, Profecia Celestina: «À primeira vista a cadeia é tenebrosa, mas foi aqui que descobri respostas para as minhas questões existenciais.»
SONHOS E COMPANHIA A rotina prossegue, inabalável. Dentro de uma prisão são poucas as novidades e as alegrias. De vez em quando, uma luz ao fundo do túnel, alguém que sai para julgamento, em liberdade precária ou condicional, uma visita excepcional, o fim de uma pena. Com mais frequência se fala de droga, das loucuras cegas que atravessam a noite nas celas, dos negócios, das doenças, dos suicídios, da falta de apoio, das saudades e da solidão. Depois, há fases em que se conversa, joga ou vê mais televisão, em que se lê mais, e outras em que não se faz nada, saturado de tudo.
Raúl Costa parece atravessá-la todas a sorrir. Sujeito volumo e de gargalhada pronta, tem 44 anos e está preso há quase nove, com uma pena de cerca de 11, por burla, abuso de confiança e falsificação de documentos. Descobrimo-lo na biblioteca de Pinheiro da Cruz. Ex-profissional do espectáculo, artista de variedades, locutor, actor, cantor e palhaço, é rápido na apresentação: «Sou um tipo divertido, do signo Gémeos, extrovertido, brincalhão. Mas quando estou numa fase negativa, fuja quem estiver de baixo.» Como todos os palhaços, as lágrimas assentam-lhe tão bem como os sorrisos. E diz: «Nasci no Montijo e fui abandonado por pai e mãe com oito meses de nascido. Passei a infância a roubar da casa dos meus tios para procurar o meu pai. Quando o encontrei, ele disse-me que me odiava a mim e a quem me tinha salvo a vida e puxou de uma faca para me matar.» Histórias tristes de quem passou depois por dois institutos de reeducação, foi fuzileiro dos 16 aos 24 anos, depois alfaiate, ourives, tipógrafo, o que calhasse. No meio delas, um terceiro ano de Medicina tirado com gosto, e os livros, muitos livros, da colecção Mosquito ou Major Alvega, Os Maias, O Monte dos Vendavais, Os Miseráveis, «êxtases de leitura».
Na cadeia, Raúl lê ainda mais do que antes. Explica: «É um escape. O espírito solta-se, sai daqui e transporta-me para o ambiente do livro. Já não vejo mais nada à minha volta..» Foi nesta elevação de espírito que, há pouco tempo, sorveu uma a uma as páginas de Guerra e Paz, de Léon Tolstoi ou O Senhor dos Anéis, de Tolkien. Por isso hoje defende, ironia das ironias, que a prisão proporciona incentivos à leitura inexistentes cá fora. «Aqui, o acesso aos livros é mais fácil. Conversa-se mais sobre eles, tem-se mais tempo, vontade e paciência para ler.» Ali, onde o tempo conhece outras regras, a vida tenta furar as grades através das páginas dos jornais e dos livros. Nas cadeias, existe um povo que lê não porque é obrigado a isso, mas porque descobre que esse acto é uma das formas mais singulares de libertação e de viagem. Através da leitura, homens e mulheres a quem foi imposta uma medida restritiva de liberdade provam ser sobretudo cidadãos em pleno gozo dos seus direitos, capazes dos piores defeitos e das maiores virtudes. Seres humanos capazes de desvendar, pela boca de António Tomás, o segredo maior da leitura: «É como os cigarros: fuma-se um, dois, três,... e já não se consegue parar.»

ESCREVER A FUGA Stephane Guardes tem um olhar matreiro e doce. Natural da Alemanha, mas com nacionalidade francesa, aos 33 anos é já conhecido internacionalmente como um dos reclusos europeus mais perigosos, perito em protagonizar fugas impossíveis. Descobrimo-lo no Estabelecimento Prisional do Linhó, a expiar uma pena de 20 anos, da qual cumpriu oito anos e seis meses em diversas cadeias portuguesas. E diz: «A liberdade depende da corrente que nos prende. Cada um tem a sua própria prisão.» Nos livros, companheiros de sempre na sua vida, Stephane encontrou «uma das únicas coisas a que [se] podia agarrar no meio do inferno psicológico que são as cadeias». Nos de Niestzche, por exemplo, descortinou o seu próprio retrato e recolheu «conselhos preciosos»: «Ter consciência do que sou capaz. Ultrapassar as virtudes e os defeitos para alcançar coisas mais altas. Ter objectivos. Não me deixar influenciar. Desenhar o meu caminho e admitir aquilo que sou.» Agora, Stephane concentra as suas forças numa só ideia: escrever o livro da sua vida. Explica: «Será o meu desabafo em palavras, uma marca das aventuras por que passei, contadas com um grande sentido crítico.»
Peripécias não lhe faltam. Aos 20 anos, é detido em Nice e condenado a prisão perpétua por homicídio. Cinco anos depois evade-se da cadeia de alta segurança daquela cidade francesa, empunhando uma «pistola» feita com papelão. Seguem-se anos «de férias» através da Europa, vários assaltos a bancos. Em 1989, é «chibado» (denunciado) por um membro da quadrilha com a qual então actua em Portugal. Detido no EP do Porto, inicia uma interminável série de tentativas de fuga. Pelo meio, fica uma, do Hospital de Caxias, desta vez empunhando uma «pistola» feita de sabão. Este ano, finalmente seguro de que não será extraditado para França, onde teria de cumprir prisão perpétua, «já não [lhe interessa] fugir.» Por isso, escreve todos os dias, todas as noites, um livro que pretende que seja também «um requisitório sobre o sistema francês de prisão perpétua». Não sabe ainda se alguma vez o vai terminar, mas já escolheu o título: Nom et Prénom de Ta Mère (Nome e Apelido da Tua Mãe). Foram essas as primeiras palavras dos agentes franceses que o capturaram em 1985. «Chocantes, nunca mais me sairam da cabeça.»

UM LIVRO E UMA FLOR Quando há cinco anos entrou no Estabelecimento Prisional de Tires, condenada a uma pena de 15 por homicídio, Laura Macedo sentiu «um misto de medo e de alívio». Na época, gastava 50 contos por dia em droga e sabia «que estava muito perto da morte». Depois da ressaca de privação e do ajuste ao mundo da cadeia, começou a reagir. «Estabeleci objectivos e comecei logo a estudar», lembra. Após ter completado o 11º ano e um curso de formação profissional em tapeçaria de Arraiolos, Laura prepara-se agora para o exame ad-hoc de acesso à Faculdade de Direito. Entretanto, retomou «com esforço e vontade» um prazer antigo e crucial na sua vida: a leitura. Explica: «Para mim, ler sempre foi uma forma de viajar saudavelmente para outros mundos.» Nos livros, redescobriu que «a mente é livre» e inventou-se de novo a si própria. Pouco se importou se, na prisão, as reclusas que não lêem catalogam as outras, as leitoras, «como alguém que se está a armar aos cucos, a exibir-se ou a achar que é mais importante do que as outras». Nas páginas de O Principezinho, de Saint-Exupéry, Laura descobriu um dos segredos para vencer a sua dependência de drogas. E conta: «Identifiquei-me com a flor que é protegida pelo príncipe. Ela passou a representar o meu próprio eu. Quando somos toxicodependentes, o nosso eu fica muito escondido, muito desprotegido. Neste momento, acho que o protejo como se fosse a minha flor. Ponho-lhe uma campânula »

VISÂO nº296/1998
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

Paul Auster - Um Livro Por Dia

Alternativa: Ficção

Na escuridão da noite, August Brill, 72 anos, vítima recente de um acidente de viação, enfrenta as insónias contando histórias a si mesmo. Num desses sonhos que o ex-crítico literário imagina de olhos abertos, o ataque às Torres Gémeas não existiu e a América está em guerra civil há quatro anos, com um saldo de treze milhões de mortos. Para a salvar, Owen Brick, mágico profissional, 30 anos, alistado compulsivamente como cabo do exército dos Estados Unidos contra os Federais, é encarregado de assassinar, no «mundo real», o escritor que concebeu todo este enredo delirante. Homem na Escuridão, décimo sexto romance de Paul Auster apresenta-se como mais uma narrativa improvável, uma metaficção com contornos fantásticos e de périplo existencial. Porque, como o autor norte-americano defendeu uma vez (em entrevista à revista «Lire», Abril 1994): «Se [os romances] fossem credíveis, por que é que haveríamos de os ler?»
Muito longe da complexidade, da excelência e do alcance de Mr. Vertigo (1994, Asa), obra-prima sobre o mito americano, Homem na Escuridão é a resposta de Auster à obsessão literária em que se tornou o 11 de Setembro. Escritor de personagens, que apanha em queda, e de cenários parcos, próximo da mecânica dos enredos cinematográficos, Auster desiludiu a crítica com o último, e ruminante, Viagens no Scriptorium. Agora, poderiam reabilitá-lo do umbiguismo a invenção de August Brill e a condescendência terna com que trata em paralelo as confissões biográficas e a relação com a neta Katya («Dois pobres tristes, tu e eu...») e com o namorado desta, Titus Small (jovem mártir americano da guerra no Iraque).
Mas, é evidente: Auster, apoiante de Obama, quer alertar para uma guerra civil de ideias a decorrer hoje na América. Para isso, inventa uma guerra civil fictícia (no terreno e nos afectos de Brick pela esposa e pela ex-colega de escola Virginia) e concentra-a no delírio apocalíptico de um idoso que resiste a desacreditar o poder das histórias. O resultado, apesar da inegável inteligência de Auster, é um enredo preguiçoso e pretensioso. A alternativa crítica à realidade política e à História pode ser uma das maiores potencialidades da ficção, mas não se basta a si mesma sem a aplicação técnica do escritor.


Homem na Escuridão, Paul Auster


SOL/29-11-2008
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

Inspector PIDE - Um Livro Por Dia

Um dos maus, por dentro

Depois de, em 2007, ter sido destacada com o Prémio Pessoa, Irene Flunser Pimentel mantém-se como uma das mais importantes contribuidoras para a renovação do entendimento de Portugal no século XX. Têm sido notáveis os retratos com contornos mais precisos trazidos pelos seus ensaios sobre a presença judaica durante a II Guerra Mundial, as vítimas de Salazar e as instituições do Estado Novo, nomeadamente as organizações de juventude feminina e a PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado Novo, a operar entre 1945 e 1974). É a esta última (à qual dedicou a sua tese de doutoramento) que a historiadora regressa, de forma inovadora, com «Biografia de um Inspector da PIDE: Fernando Gouveia e o Partido Comunista Português». O livro já está à venda, pela Esfera dos Livros.
Numa «Nota Prévia», Flunser Pimentel justifica por que escolheu biografar Fernando Araújo Gouveia (1903-1990) e nele encarnar «o» inspector do Gabinete Técnico da Polícia Política, da PVDE(Polícia de Vigilância e Defesa do Estado)/PIDE/DGS(Direcção-Geral de Segurança). À abundância das fontes (o primeiro volume, publicado em 1979, das memórias do biografado e os documentos do processo judicial de que foi objecto no pós-25 de Abril) juntou-se a riqueza e a complexidade desta personagem meticulosa (definiu-se como «disciplinado e disciplinador»), «grande especialista, senão o maior» nos métodos de organização clandestina do PCP entre 1926 e 1974.
Detalhe vivo e uma visão precisa, mas singular e criativa, dos movimentos interactivos entre indíviduo e colectivo são algumas das características do estilo rico da historiadora. Agora, conta-nos a história da ascensão e queda do filho ilegítimo de um capitão da Armada que se tornou um pai de família severo (com filhos de vários casamentos), um fanático de Salazar, um operacional vaidoso, envaidecido pelo poder e pelo prazer que recolhia das suas investigações, e um temido torcionário. Defendendo um desempenho do historiador «nem neutro, nem juiz», antes ciente da projecção dos seus próprios valores na leitura do objecto, Flunser Pimentel ilumina o comportamento de um dos «maus», ao serviço do regime ditatorial durante 46 anos, enquanto desvenda, através dele, parte do «puzzle» da resistência comunista durante o  Estado Novo.

Biografia de um Inspector da PIDE, Irene Flunser Pimentel, Esfera dos Livros, 396 páginas

SOL/01-11-2008
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Manual de Saramago - Um Livro Por Dia

Reinvenção da História, da frase e da ficção ao serviço da reinvenção do Homem. A obra literária de José Saramago exprime a consistência da sua esperança numa determinada afirmação ética e humanística.

Um homem com uma moldura ética e ideológica, solitário, extraordinariamente perseverante nos seus ideais e objectivos. E um homem que escreve, com uma determinação rara, forjando uma voz original. São duas faces indestrinçáveis do mesmo homem: José Saramago, criador de 35 obras de ficção, poesia, diário e crónica, ensaio, literatura infantil, teatro e texto operático. Um escritor que se estreia aos 25 anos (com o romance Terra de Pecado) e depois fica quase em silêncio durante trinta (apenas, garantiu, porque entretanto «não tinha nada para dizer»), para depois iniciar de facto a afirmação plena como autor, Levantado do Chão, aos 58 anos.
Até ao fim, Saramago desafia os cânones estilísticos e o registo da História na ficção. Neto de camponeses, autodidacta, sobe a vida a pulso até chegar ao Prémio Nobel da Literatura e, num dos discursos mais políticos proferidos perante a Academia Sueca, afirmar a sua concepção humanista, a sua ligação umbilical a uma «moral proletária do trabalho» (Baptista-Bastos). Nesse ano, 1998, diz-me: «Sei que sou capaz de grandes amizades, sempre poucas. Ao longo da vida, teria gostado de ter grandes amigos, e não os tive quando precisaria deles... Sempre vivi muito isolado. Lembro-me de ter dito numa carta que, há uns quatro anos, escrevi ao Eduardo Lourenço: "Leva em conta que, como escritor, eu sou como os pretos e as mulheres: tenho  que valer duas vezes para ser reconhecido uma." Entende? Se há luta, nem sequer se trata do facto de eu ter lutado para chegar a valer duas vezes e ser reconhecido uma. É antes esta consciência que eu sempre tive: "Meu caro, já sabes, não tenhas nenhumas ilusões, a ti ninguém te aceitará como tu és. E, para que te aceitem, tens que valer duas vezes aquilo que, em determinado momento, estás a conseguir. Valer uma vez só não é suficiente; pode sê-lo para toda a gente, mas não para ti."»
Reconhecer-se-à em toda a sua bibliografia o enfoque absoluto das narrativas nas questões ontológicas das personagens, na consciência aguda do mundo que as rodeia, na maioria das vezes injusto, terrível, mas passível de transformação. «Ler Saramago proporciona a cada um o melhor entendimento de si e dos outros: nos seus romances, [há] uma mágica voz a dizer-nos quem somos e o que deveríamos ser», defendeu a ensaísta Beatriz Berrini.
Surge primeiro um narrador que, no seu presente ficcional, indaga, interpreta e interroga o passado português (Levantado do Chão, 1980, Memorial do Convento, 1982, O Ano da Morte de Ricardo Reis, 1984, A Jangada de Pedra, 1986, História do Cerco de Lisboa, 1989). Depois, o amor a Portugal, os romances, abrem-se a considerações universais, vastos e provocatórios painéis de reflexão sobre a condição humana (Ensaio sobre a Cegueira, 1995, Todos os Nomes, 1997, A Caverna, 2000, O Homem Duplicado, 2002, Ensaio Sobre a Lucidez, 2004, As Intermitências da Morte, 2005, Caim, 2009). Embora o autor apenas aceitasse a presença explícita de elementos autobiográficos no romance Manual de Pintura e Caligrafia, é Saramago ele mesmo, o homem que pensa o mundo à sua volta de um modo singularíssimo, quem dá a forma a todos os livros e afirma: «De uma maneira geral, a pessoa que eu sou está lá. Quando eu defendo, meio a sério meio a brincar, que todos os meus livros deviam levar uma cinta a dizer: "Atenção, este livro leva uma pessoa dentro", é isso mesmo que quero dizer. Podem não estar lá os factos da pessoa que o autor é, mas o autor está lá; e, no meu caso, está lá duplamente e triplamente.»
Após abandonar em definitivo a poesia (Os Poemas Possíveis, 1966, Provavelmente Alegria, 1970), Saramago coloca a seguinte frase na boca de H., protagonista de Manual de Pintura e Caligrafia, um pintor em crise que procura expressar-se por palavras: «Viajo devagar. O tempo é este papel em que escrevo.» Começa precisamente aí, neste interessantíssimo romance autobiográfico sobre a expressão artística, a aventura da invenção saramaguiana. A fluidez, o ritmo da expressão do narrador quase sem nome implicam saltos contínuos no tempo e no espaço e servem a avaliação interpretativa, a filtragem subjectiva, a objectivação e inversão da realidade presente e passada. O texto começa a falar, numa encruzilhada de registos narrativos, reiterações e repetições. Em Levantado do Chão, o ponto final e a vírgula são já meros «sinais de pausa» num esforço de aproximação do texto à oralidade.
O autor dirá mais tarde que a sua prosa «deve ser lida em voz alta». A subversão da pontuação acompanha a subversão do real através de alegorias e metáforas. Eleva-se sobre tudo a utopia de uma voz que enuncia a sua busca de respostas para problemas concretos do homem e do mundo enquanto narra as experiências das personagens no tempo e espaço da ficção («As personagens dos meus romances são comuns, aquilo a que eu chamo “vidas desperdiçadas"», JL, 18/01/1983). A torrente das palavras escritas-ditas pretende estabelecer-se num diálogo com um leitor sensível à sua manifestação poética e ao questionamento da História através da imaginação, até mesmo do fantástico, do maravilhoso ou do apocalíptico (intenção superiormente atingida em Memorial do Convento ou Ensaio Sobre a Cegueira; falhada no registo fantástico de A Jangada de Pedra ou na parábola de A Caverna). A ficção de Saramago interpela o leitor, provoca-o, pode até chocá-lo ou tão só satisfazê-lo esteticamente, mas, sobretudo, exige-lhe atenção.
Pesquisador incansável, o escritor procede a uma fértil exploração linguística, enquanto sustenta com detalhe e rigor as referências históricas e as intertextualidades (notáveis no brilhante jogo de máscaras de O Ano da Morte de Ricardo Reis) presentes na sua ficção. A partir de História do Cerco de Lisboa, Saramago garantiu ter-se empenhado na «desbarroquização da linguagem», aliviando a extensão da frase e a ligação entre o discurso directo e o indirecto. Procurando auto-superar-se, experimentará, por exemplo, a paródia e  o humor (sobretudo, em O Ano da Morte de Ricardo Reis, As Intermitências da Morte, A Viagem do Elefante, 2008, e Caim, o último romance) como inovação no seu universo estético, mas também como provocação a um discurso oficial e convencional, ao que condena como conformismo ou lugar-comum. Os objectivos artísticos seguem sempre de perto os objectivos existenciais, ideológicos e humanistas, todos impregnados daquilo a que José, o revisor de História do Cerco de Lisboa chamou o «sentido da emenda» e que o escritor identificará como «meditação sobre o erro» (no geral, sentenciosa).
É sem dúvida árduo o percurso obstinado do escritor que, no seu incessante questionamento do Poder, chega a ousar a intervenção 'em nome de Deus' junto dos homens (In Nomine Dei, peça de teatro, 1993). Provavelmente, terá também de ser árduo e obstinado o caminho do leitor que se aventure à leitura de toda a obra. Saramago garantiu várias vezes que a visão súbita e misteriosa do título de alguns dos seus romances foi acompanhada pela revelação da arquitectura inteira das tramas romanescas. O mistério da literatura serviu-o, pois, nos seus objectivos estéticos e nos mais concretos: criar uma voz e fazê-la ouvir. Na inquestionável grandeza da sua capacidade narrativa uniram-se tese e invenção, vida e obra, indestrinçáveis. Nela se cumpriu em pleno, o que, logo aos 18 anos, o José Saramago serralheiro mecânico, leitor voraz nas horas vagas passadas na Biblioteca Municipal das Galveias, terá assegurado para si próprio: «Aquilo que tiver de ser meu, às mãos me há-de vir ter.»

SOL/ 25-06-2010
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

terça-feira, 19 de outubro de 2010

A Mosca Azul - Um Livro Por Dia

Variações do medo

Duzentos anos após o nascimento de Edgar Allan Poe (1809-1849), o terror está de volta. De culto, a ficção de terror é, talvez, o género que mais impele cada leitor para a construção de uma biografia de leitura, a partir de características e motivações psicológicas intransmissíveis. Ainda assim, é inegável a universalidade da experiência «maravilhosa, terrível e venenosa» (segundo Oscar Wilde) da leitura de O Poço e o Pêndulo, de Poe, ou a de A Volta do Parafuso, de Henry James. Recém-editado, Que o Diabo Leve a Mosca Azul, de John Franklin Bardin, é um dos expoentes máximos de perícia na criação de uma atmosfera ficcional terrivelmente perturbadora. A escritora Ana Teresa Pereira alerta, no prefácio desta «história de música e de loucura»: «Os que conseguirem ler este romance não o esquecerão tão cedo. (…) Não sei se recuperamos [da sua leitura].»
Trabalhando a película fina que separa o desejo de uma racionalidade previsível da queda livre num universo de alucinação, John Franklin Bardin (1916- 1981) assinou dez thrillers psicológicos. Que o Diabo Leve a Mosca Azul, de 1948, é, com unanimidade, o melhor dentre eles. Uma narrativa em ligação estreita com a ária e 30 Variações Goldberg para cravo, de Bach, ao som das quais o escritor compôs o original em apenas seis semanas. O ponto de vista é o de Ellen, uma cravista que acaba de sair de uma instituição psiquiátrica onde esteve internada durante dois anos. Quando procura a chave para o seu cravo, para o regresso à interpretação e aos palcos e a uma vida 'normal' com o marido, Basil, Ellen reeencontra a música e a loucura - personificada no seu alter ego maquiavélico, Nelle.
Que o Diabo Leve a Mosca Azul merece uma primeira, uma segunda, uma terceira leitura, para total impregnação dos vários desenvolvimentos do que poderíamos chamar o acorde psicopatológico de Ellen. Aqui, o segredo da tensão provocada no leitor não está na repetição obsessiva e claustrofóbica. Como na música, Bardin explora antes a ideia de variação,  de uma medida de repetição (a racionalidade) usada apenas como fundo de reconhecimento para salientar a surpresa de elementos novos (a loucura). A suspensão ocorre materializada em palavras físicas e ferozes. Como uma garra apertada ou um refrão de sons consonânticos.

Que o Diabo Leve a Mosca Azul, John Franklin Bardin, Relógio d'Água, 173 págs.

SOL/17-06-2009

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segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Rawi Hage - Um Livro Por Dia

Roleta russa, em Beirute

Dez mil bombas sobre Beirute. Dez mil uísques a queimar gargantas. Dez mil agulhas espetadas nos braços. Dez mil bofetadas. Dez mil charros. Dez mil voragens de sexo. Dez mil ondas. Dez mil, e mais, mortos. Dez mil lágrimas de sangue. Com a cadência lírica de uma litania, com humor e violência, em 2006, o libanês Rawi Hage (44 anos, emigrado no Canadá desde 1992) escreveu o seu primeiro romance directamente em inglês. Fê-lo para expurgar a memória dos nove anos que viveu da guerra civil no Líbano, no início da década de  80. O livro acaba de receber o prémio IMPAC Dublin 2008, passando a perna a candidatos como Philip Roth, Margaret Atwood, Thomas Pynchon ou Cormac MacCarthy. A Civilização edita-o com o título Como a Raiva ao Vento. Mas o título original, De Niro's Game, evoca a cena do filme O Caçador em que o actor americano joga à roleta russa com uma arma.
Numa cidade cuja companheira é o pó, dividida entre forças cristãs ou muçulmanas, por sacos de areia e snipers, milícias e civis indefesos. De mota, o depósito cheio de gasóleo roubado, o adolescente Bassam Al-Abiad, que trabalha no porto a manobrar o guincho, corta as ruas adormecidas. Acompanha-o o melhor amigo de infância, o orfão George «de Niro», empregado numa espelunca com máquinas de póquer. «Conduzia por ruas com lampiões partidos, paredes cobertas de buracos de balas e sangue derramado que se transformara em nódoas escuras nos passeios empoeirados por limpar. Conduzia e sentia sangue nas veias, convalescença e vento fresco no peito.» Como se vomitasse o cenário de guerra, Bassam narrará em três partes o percurso até à fuga para Paris. O júri do IMPAC apontou: este explosivo «enredo visceral» não tem «nenhuma resolução fácil, nenhum final redentor».
Uma bomba acaba de matar o pai. Em breve, acontecerá o mesmo à mãe. Bassam está sozinho, ainda mais quando George integra uma das milícias mais poderosas e lhe rouba a namorada, Rana. Só pela efabulação, conseguirá escapar aos esquemas, à tortura, às traições, às chacinas. Mas a morte, Bassam nunca a conseguirá tirar dentro de si. Porque, em Como a Raiva ao Vento, matar ou ser morto são formas de suicídio. E o suicídio, como o definiu Camus, é o «único problema filosófico verdadeiramente sério».

Como a Raiva ao VentoRawi Hage, Civilização Editora, 284 págs.

SOL/07-08-2008


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Richard Ford - Um Livro Por Dia

Pele e paisagem

Tente fazer este exercício antes de ler A Pele da Terra (Teorema), do norte-americano Richard Ford. Se não está na rua, saia ou olhe pela janela. Congele a paisagem em torno de si e descreva-a até ao mais ínfimo e subtil pormenor. Primeiro, passe em revista a paisagem física natural (caso haja alguma) e foque depois toda a atenção na paisagem modificada e nos sinais que, nela, possa relacionar com a paisagem humana. Camada atrás de camada, avance até conseguir descrever hipóteses de paisagem psicológica. Anote. Repare. No final, a tradução por palavras e o esboço interno que construiu estarão provavelmente próximo do que podemos chamar «a pele» (epiderme, derme e hipoderme) do que vê à sua frente. Agora, abra o romance e comece a ler. A experiência que o espera nestas mais de 600 páginas não anda muito longe do exercício que acabou de fazer.
A Pele da Terra é uma boa tradução para o título original The Lay [camada] of the Land. O romance, de 2006, é o terceiro da trilogia centrada no narrador Frank Bascombe, iniciada por Richard Ford em 1986, com O Jornalista Desportivo (Teorema) e prosseguida, em 1995, com Dia da Independência (Presença), que conquistou em simultâneo os prémios Pulitzer e Pen/Faulkner. O autor garante que este é o mesmo o último Bascombe e não há razões para duvidarmos dele.
Ford, hoje com 65 anos, sempre foi um autor sui generis, cada vez mais avesso à exposição pública, distante e imune à fogueira das vaidades do meio literário norte-americano. Aluno de E. L. Doctorow no curso de escrita criativa da Universidade da Califórnia, começou por se afirmar na linha do minimalismo e «realismo sujo» de Raymond Carver, com enredos duros («hard boiled») nos quais a acção servia uma visão sombria do homem médio americano. O insucesso dos dois primeiros livros (A Piece of My Heart, 1976, e A Última Oportunidade, 1981, Relógio D'Água) levou-o a empregar-se como redactor da revista nova-iorquina Inside Sports, experiência que transpôs para o enredo do primeiro Bascombe, o início do reconhecimento unânime por parte da crítica das suas grandes capacidades estilistas.
Ford garante que O Jornalista Desportivo respondeu ao pedido da sua mulher, Kristina, para que ele escrevesse sobre «uma personagem feliz». O desafio não foi totalmente conseguido (digamos que a postura de Frank Bascombe perante a impossibilidade de ser feliz é mais melancolia passiva do que outra coisa), mas Ford afastou-se da linha Carver e aproximou-se de um certo realismo suburbano ao jeito de John Cheever (ou Richard Yates) e das abordagens auto-reflexivas de Saul Bellow. O seu trabalho literário concentrou-se na linguagem, no poder evocativo de cada palavra, numa espécie de jogo de tensão e distensão em cada frase para descrever a paisagem interna e externa das personagens,  agora (talvez por isso) capazes de redenção.
Embora não tão brilhante como O Jornalista Desportivo ou Dia da Independência, e correspondendo mais a uma rememoração do que uma sequência conclusiva, A Pele da Terra é um grande romance e a narração de Frank Bascombe (como em Rabbit Angstrom, de John Upike) sobreviverá como um dos grandes retratos psicológicos da América contemporânea. A crítica dividiu-se na recepção e o mesmo acontece com certeza com os leitores. O ritmo do romance pode ser lento, longo e repetitivo e os conflitos esparsos, mas, por isso mesmo, este é um puro Ford. Destina-se a leitores que apreciem saborear um livro frase-a-frase, parágrafo-a-parágrafo, sem pressas nem desejos de enredos folhetinescos, de fim para a história ou, sequer, de perceberem o que a personagem quer exactamente. Aliás, segundo Ford: «Num romance a linguagem é acção. É onde residem os valores.»
Apresente-se, pois, Frank Bascombe. No primeiro volume, ele é um escritor falhado que se tornou jornalista desportivo e procura sobreviver, mal, à morte do filho Ralph, aos nove anos, com síndroma de Reye. Em Dia da Independência (uma excelente tradução de Fernanda Pinto Rodrigues) trabalha como mediador imobiliário e reside em Haddam, Nova Jérsia, na casa que pertenceu à ex-mulher (que entretanto se mudou para o Connecticut, com os dois filhos de ambos, Paul e Clarissa). Durante o fim-de-semana do 4 de Julho, Frank faz um périplo de visita a museus do desporto, uma tentativa de aproximação com o problemático filho adolescente Paul e, sobretudo, uma reflexão sobre o «Período Existencial» que vive naquele momento. A meia-idade traz-lhe uma certa harmonia de transição entre a nostalgia e as crises do passado e a ansiedade de um futuro que não consegue idealizar. Frank paga essa harmonia com a solidão, tornando-se independente, ou, como defendeu o autor, «colocando uma certa distância entre si mesmo e os outros, saindo da órbita deles».
Em A Pele da Terra, Richard Ford continua a fazer mexer a sua personagem como alguém que se limita a deixar que as coisas lhe aconteçam. Em 2000, a dois dias do feriado da Acção de Graça (um dia que ele quer «sem tema»), quando receberá os dois filhos na sua casa no Sea-Cliff, Frank prossegue o trabalho como mediador e rumina sobre a sua vida como se, câmara ao ombro, inventariasse um cenário imobiliário. Entretanto, teve um cancro na próstata e um (inconclusivo) segundo casamento. Está entre o «Período Permanente» e o «Nível Seguinte», quando o passado já não pesa e o futuro já não alterará nada de essencial, e o presente brilha com a sua «presentidade» (por vezes cómica de tão absurda, como quando é confrontado com o primeiro marido da sua segunda mulher, Sally, tem de enfrentar as opções lésbicas da filha Clarissa, se vê relacionado com um ataque bombista ou é alvejado no peito). Agora, já «não tornará a ser» e o seu sentido de «pertença e de ajuste, de reivindicação e estabilização é, na melhor das hipóteses, efémero». Aos 55 anos, desenraizado, só procura a sua «pele da terra», ou seja, preparar-se para responder a uma pergunta intrigante: «Está [pronto] a ir ao encontro do seu Criador?»
Desde pequeno que Richard Ford luta contra a dislexia e este é um dado importante para perceber os seus livros. Disse uma vez que a dislexia o forçou a uma aproximação lenta e reflexiva à leitura e o mesmo se deve passar também com o seu trabalho de bilros com a linguagem e a dissolução da acção nos diálogos, nos detalhes mais ínfimos, no ritmo distendido dos parágrafos, nos aforismos e epifanias da personagem. Natural do Mississipi, Ford possui uma matriz de irónico conservador sulista, para o qual conta a mesmice da paisagem à volta, por mais modificada que se encontre, e a impossibilidade de lutar contra o destino. Mas Ford nunca viveu muitos anos no mesmo sítio e gosta de afirmar que «escrever é a única coisa que fiz com persistência, à excepção de estar casado». O amor de décadas por Kristina (que trabalha com ele cada original) deu-lhe, como assegurou em entrevista recente, a possibilidade de mudança das raízes do seu temperamento. Como se a passividade imparcial que enriquece um observador produzisse afinal uma inevitável e fértil impermanência e estivesse no centro da revelação da tal «pele» que nos separa ou une à paisagem. A experiência, testada na auto-reflexão de Frank Bascombe, mostra-nos a textura palpável de uma vida quase estática na imensa paisagem em movimento da América contemporânea.

LER/Novembro 2009

© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)