Nunca ninguém se perdeu, tudo é verdade e caminho.
Fernando Pessoa



quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Manual de Possibilidades

«A literatura não nasceu quando um rapaz a gritar: "Lobo! Lobo!" saiu a correr do vale de Neanderthal com um grande lobo na sua peugada: a literatura nasceu quando um rapaz apareceu a gritar: "Lobo! Lobo!" e não havia lobo nenhum a persegui-lo.»
Vladimir Nabokov

Peter Carey - Um Livro Por Dia



Eis a democracia

Num grande romance, Peter Carey segue Alexis de Tocqueville até à América.

Há livros cuja leitura compensa tanto o crítico que o empurram para as hipérboles. Parrot e Olivier na América, de Peter Carey, recém-editado por cá e um dos seis finalistas para o Man Booker 2010, é uma obra-prima de inteligência, técnica e humor e merece uma degustação gourmet. Leiam-no, por favor, e leiam-no depressa. Mas, sem pressas, saboreiem-no. A editora Gradiva aposta que este romance histórico e de ideias com tom de sátira e comédia pícara dará ao ficcionista australiano o seu terceiro Booker (os outros foram para Oscar and Lucinda, 1988, e True History of the Kelly Gang, 2001), um feito histórico. Peter Carey é já um dos melhores escritores contemporâneos.
Paul Auster chama-lhe «acrobata mental» e Carey exibe, de facto, um enorme domínio da estrutura e tensão narrativas. Todavia, o que torna tão especiais os seus romances é a capacidade de aliar na linguagem e invenção «a robustez do século XVIII, o léxico do século XIX e uma liberalidade moderna» (como defende o crítico James Wood). A mistura atinge o auge nesta recriação muito livre, embora fundamentada, dos passos do pensador Alexis de Tocqueville (1805-1859, autor de Democracia na América) até e durante a sua viagem aos EUA em 1830. Carey oferece ao aristocrata francês (que baptiza como Olivier de Garmont) a companhia de um criado dickensiano, e divide a narração pelos dois. Parrot, orfão de um tipógrafo inglês e explorado por um aventuroso Marquês de Tilbot, artista falhado e seduzido pela apaixonante pintora Mathilde, é a criação mais interessante do livro.
Parrot e Olivier, antagónicos, aceitam a custo viajar até à América e aceitam-se a custo até se unirem numa amizade simbólica, na terra onde «não havia necessidade de aristocracia». Amo e criado são submergidos pela essência da América e da democracia: a conquista das oportunidades para cada homem livre, o centro da narrativa. A textura de cada atmosfera e de cada personagem, da sua biografia, da sua classe social, das suas perspectivas, é trabalhada frase a frase, excitando a curiosidade e a reflexão do leitor. Da Revolução Francesa até «uma sociedade tão entusiasmada com as ilusões sobre si própria que a sua melhor biblioteca tinha o ambiente inebriante de um bar», Parrot e Olivier na América torna o passado palpável e tremendamente actual.

Parrot e Olivier na América, Peter Carey, Gradiva, 488 págs.

SOL/10-09-2010
© Filipa Melo (interdita a reprodução integral sem autorização prévia)

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

John Updike - Um Livro Por Dia


Sobretudo reconhecido como romancista e crítico literário, John Updike (1932- 2009) foi também poeta. Apesar de nunca ter sido muito considerado enquanto tal, desde os anos 50, os seus «light verses» mostraram as virtudes técnicas que confirmaria na prosa: agilidade linguística, humor subversivo e extraordinária capacidade de observação. Em verso, como na criação do psicanalítico Henry Bech ou do típico Harold Coelho Angstrom, Updike praticou «cartonismo com palavras» e a literatura como expressão das «vidas internas do homem incógnito» (do brilhante conjunto de textos de crítica Hugging the Shore, 1983).
No póstumo Ponto Último e Outros Poemas, recém-editado pela Civilização com tradução da poeta Ana Luísa Amaral, Updike expõe-se com uma leveza diarística, mas sob o peso da lucidez da chegada da morte. Trata-se de uma colectânea interna de poemas escritos nos últimos oito anos de vida, finalizada pouco antes de falecer, a 27 de Janeiro deste ano. No centro, a organização formal de um testamento detalhado, tutelada pela primeira parte, «Ponto Último», sequência de poemas escritos nas datas de aniversário, depois registo da luta contra o cancro. Os seguintes «Outros Poemas»  — em torno de referências culturais e triviais, sonetos ou notas leves e pessoais — completam o mesmo inventário lúdico de um passado. O que lemos é «uma vida vertida nas palavras - desperdício aparente / tentando preservar a coisa consumida». Com evidente domínio técnico, o poeta despede-se, sempre despretensioso e irónico.

Ponto Último e Outros Poemas, John Updike, Civilização

Ler/Dezembro 2009
© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)



terça-feira, 28 de setembro de 2010

Philip Roth - Um Livro Por Dia


O professor do desejo

Primeiro, a má notícia: Philip Roth está a envelhecer. Tem 73 anos e, há cinco, publicou O Animal Moribundo, esta semana lançado em Portugal. Depois, a boa notícia: mantém o título de melhor escritor de língua inglesa vivo, digno sucessor dos seus mestres William Faulkner e Saul Bellow. As duas notícias têm um impacto específico junto dos leitores portugueses. Das vinte e cinco obras de ficção da bibliografia de Roth, apenas sete estão disponíveis em português. A produção posterior a Teatro de Sabbath (de 1995) tem sido editada pela Dom Quixote; da anterior, iniciada em 1959, apenas se encontram O Complexo de Portnoy (1969) e Traições (1990), pela Bertrand. Pasmado perante o atropelo de discutíveis novidades competindo freneticamente nos escaparates, o leitor tem direito a perguntar: para quando, em Portugal, uma edição coerente e completa da obra dos grandes contemporâneos, colmatando décadas de atraso?
O caso deste curto romance é sintomático. Após uma trilogia sobre a história norte-americana e esgotado o filão narrativo de Nathan Zuckerman, Roth ressuscitou outro alter ego: David Kepesh. Em The Breast (1972), Kepesh metamorfoseara-se numa mama gigante; em The Professor of Desire (1977), iniciara-se na vida intelectual e na libertação das pulsões sexuais. Na obra de Roth, ele representa o corpo físico, escandalosamente sexuado e animal. Não poderia existir melhor interlocutor para o ficcionista exorcizar o choque provocado pela morte de amigos e pela progressão do seu próprio declínio fisiológico (presentes também no último romance, Everyman, já de 2006).
O Animal Moribundo é vintage Roth actualizado por décadas de mestria a tirar o fôlego ao leitor com ímpares capacidades narrativa, reflexiva e imagética. Kepesh tem agora 70 anos e longe vai o tempo em que recorria a um psicanalista para se auto-analisar. A um ouvinte não identificado, relata a recente ligação amoroso-erótica que manteve com uma ex-aluna, a cubana Consuello, 38 anos mais nova do que ele. Percorre as memórias da “improvisada” revolução sexual dos anos 60, “a destruição em bruto do passado inibidor” da América puritana. E, ao descrever a sua biografia sexual e a de um filho que o detesta, uma pergunta mantém-se: “Consigo dominar a disciplina da liberdade em oposição ao desvario da liberdade?”
Inteligente e racional, esta “figura cómica, do género ateu da aldeia” de que Roth seguiu a vida erótica, aproxima-se da morte e insiste em ensinar as gerações seguintes. Para Kepesh/Roth, sexo é caos e selva, predomínio e cedência, um sonho de único “acto totalmente puro e protegido”. Mas, porque “é o sexo [e a morte] que traz a desordem às nossas vidas normalmente ordenadas”, o professor que queria ser livre porta-voz da “virilidade emancipada” faz o exame da sua vida e não consegue afastar as incongruências. Diz: “Envelhecer é inimaginável para todos.” E é Roth quem fala.

O Animal Moribundo, Philip Roth, Publicações Dom Quixote, 136 págs.

SOL/28-10-2006
© Filipa Melo (interdita a reprodução integral sem autorização prévia)

Cem e Meio - Um Livro Por Dia


Durante estas férias, o meu filho (8 anos) dizia para um amigo um bocadinho mais velho do que ele: «Sabes, a minha mãe tem cem livros!» O outro, talvez a gozar com o exagero dele: «Cem e meio, aposto!» E ele, muito rápido: «Também não exageres!...»
Pelas minhas contas, devem ser à volta de quatro mil, a acompanhar-me para aí na décima quarta mudança de casa. Não sei quantos deles li na íntegra, mas com toda a certeza mais de metade. Não sei quantas recensões críticas terei feito de entre essas leituras. Mas sei o volume do meu arquivo e decidi partilhá-lo. A partir de hoje, encontrarão aqui uma recensão ou um artigo por dia, sobre um livro ou um autor e mais ou menos actuais. Talvez dê para mais do que cem e meio dias... A ver.